Andrea Pucci anunciou que renuncia à participação em Sanremo como co-apresentador da terceira noite do festival, após uma escalada de críticas, insultos e ameaças dirigidas a ele e à sua família. Em um comunicado público, o comediante lembrou seus 35 anos de carreira e disse que seu ofício sempre foi “fazer rir”, refletindo usos e costumes italianos com leveza e sátira.
“O meu trabalho é fazer rir as pessoas, há 35 anos. Sempre levei ao palco os usos e costumes do nosso país, satirizando traços dos homens e das mulheres”, afirmou Pucci, acrescentando que recebeu uma “onda mediática negativa” que alterou “o pacto fundamental” com o público. Ele descreveu como “incompreensíveis e inaceitáveis” os insultos, as ameaças e os epítetos direcionados a ele e aos seus familiares.
Em tom de recuo, Pucci agradeceu a Carlo Conti e à Rai e justificou sua decisão: “Por isso dou um passo atrás”. Em seguida, provocou uma reflexão sobre termos políticos: “No 2026 o termo fascista não deveria mais existir; existem o homem de direita e o homem de esquerda que pensam de maneira diferente, mas que se confrontam dentro de um ordenamento democrático que felizmente governa o nosso amado país”.
Sobre as acusações de preconceito, o comediante foi taxativo: “Omofobia e razzismo são termos que evidenciam ódio ao género humano — e eu nunca odiei ninguém”.
Poucos instantes após o anúncio, veio o apoio público da primeira-ministra Giorgia Meloni, numa publicação no Facebook em que classificou a reação como uma “spaventosa deriva illiberale della sinistra”. Meloni condenou as ameaças que teriam obrigado o artista a renunciar e exortou que se envergonhem aqueles que “puseram o comediante na lista negra”, pintando uma imagem da esquerda como “prepotente, livorosa, intolerante e ignorante”.
A solidariedade política estendeu-se entre setores da direita: o deputado do FdI Francesco Filini, líder do grupo de vigilância na Rai, afirmou que a situação demonstra que “se não és de esquerda, não podes fazer comédia” e que a sátira seria permitida apenas quando dirigida à direita. Já Silvia Sardone, vice-secretária da Lega — que chegou a propor Pucci para o Ambrogino d’Oro — qualificou de “inaceitáveis” os ataques provenientes de jornais, televisões e comentaristas, defendendo o profissional como um artista que lota teatros pelo país.
O episódio funciona como um espelho do nosso tempo: a retirada de Pucci do palco de Sanremo não é só um assunto de programação televisiva, mas um ponto de inflexão na discussão sobre liberdade artística, polarização e o papel dos meios na escalada de hostilidade. Como uma cena de um roteiro onde a sátira se choca com a sensibilidade pública, esta controvérsia revela o roteiro oculto da nossa era — em que a cultura popular se encontra continuamente reescrita pelos impulsos identitários e pelas câmeras da opinião.
Fora dos microfones, ficam perguntas essenciais: até que ponto a exposição pública legitima a intimidação? Como proteger artistas e suas famílias do ataque público sem transformar qualquer crítica em censura? E como a comédia, esse mecanismo histórico de reflexão social, pode sobreviver num contexto de feroz polarização?
Enquanto a Rai e os organizadores de Sanremo não emitem outras comunicações, a decisão de Pucci já deixou uma marca no festival e no debate público. A retirada do comediante ilustra a tensão entre espetáculo e responsabilização — uma tensão que exige mais do que manchetes: pede uma reflexão coletiva sobre o tom do discurso e os limites entre crítica e violência.






















