Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Após conquistar a medalha de ouro nos 3.000 metros do patinagem de velocidade, Francesca Lollobrigida atravessou o túnel sob as arquibancadas com o tricolor nas mãos para abraçar o filho Tommaso, de três anos. A imagem, além de celebrar um triunfo esportivo, sintetiza uma transformação social em curso: a presença crescente e visível de atletas mamães nos grandes palcos olímpicos.
A história pessoal de Lollobrigida é exemplar dessa mudança. Depois do nascimento de Tommaso, em maio de 2023, ela não interpretou a maternidade como uma interrupção definitiva da carreira: “Pattinato fino al mercoledì e il venerdì ho partorito” foi a frase que a treinadora e a imprensa repetiram, e que ela mesma traduziu em ação — três meses após o parto já estava em raduno em Livigno. Ao lado da atleta, o apoio familiar foi decisivo: a mãe e a irmã, também atleta, ajudaram a tornar compatíveis as responsabilidades pessoais e a exigência do alto rendimento. O filho, diz Lollobrigida, é sua priorità e seu portafortuna.
O caso de Lollo não é uma exceção isolada: em Milano-Cortina 2026, várias delegações exibem um número incomum de mães em atividade — um recorte que revela mudanças institucionais e culturais. Nos Estados Unidos, por exemplo, há ao menos seis atletas com filhos competindo no evento. Nomes citados no corredor olímpico: Coyne Schofield, capitã da equipe feminina de hóquei e mãe de Drew; Kelly Curtis, mãe de Maeve, a primeira atleta negra a representar o Team USA no skeleton; Elana Meyers Taylor, mãe de Nico e Noah e uma das corredoras mais medalhadas da história dos Jogos de Inverno; e Kaillie Humphries, mãe de Aulden, que tenta repetir feitos e buscar novo ouro no bobsleigh.
Também entre os esportes de gelo aparecem nomes como as irmãs Tabitha e Tara Peterson, do curling — Tabitha em sua terceira participação olímpica, Tara na segunda, levando consigo o filho Eddie. As histórias pessoais convergem em uma ideia comum: a maternidade passou a ser integrada ao projeto atlético, e não mais tratada como um fim de ciclo.
Esse movimento tem fundamentos práticos e simbólicos. Nos últimos anos, vazaram para o público episódios de patrocinadoras e clubes que interrompiam contratos quando atletas anunciavam gravidez — uma prática que se mostrou obsoleta diante da prova factual de que o retorno às pistas, às quadras e aos campos é possível e, por vezes, superior ao nível anterior. Cases como o de Allyson Felix, que deixou a Nike após disputa sobre indenidade de maternidade, Serena Williams ganhando partidas após o nascimento de Olympia, e Alex Morgan marcando gols pela seleção após ser mãe, contribuíram para desmontar um preconceito antigo: a ideia de que a maternidade e o esporte de alto rendimento são mutuamente excludentes.
Em 2022, o Comitê Olímpico dos Estados Unidos lançou a Women’s Health Initiative, reunindo atletas e especialistas para discutir políticas de suporte — um exemplo institucional de que o esporte começa a responder às demandas reais de quem concilia maternidade e carreira. As medidas vão de protocolos médicos a cláusulas contratuais que protejam a carreira durante a gravidez e a amamentação.
Do ponto de vista social, a presença de atletas mamães em Milano-Cortina é mais do que um detalhe humano: é um espelho de mudanças nas estruturas do esporte moderno. Estádios e pistas voltam a ser lugares de disputa de sentidos — não só quem é mais rápido, mas quem reconstrói trajetórias, redefine prioridades e amplia o imaginário público sobre o que significa ser atleta hoje. Na Itália, a figura de Lollobrigida assume função dupla: campeã e símbolo de uma geração que combina tradição e reinvenção.
Se o resultado de uma prova é efêmero, a imagem de uma mãe comemorando com o filho no colo é memória coletiva. E memórias são políticas culturais: moldam expectativas, desarmam estigmas e apontam caminhos para políticas mais inclusivas. Milano-Cortina 2026 pode, assim, entrar para além do registro de medalhas — como um momento em que o esporte reconheceu, de forma mais plena, a maternidade como parte legítima da identidade atlética.






















