Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) rejeitou o recurso da British Bobsleigh & Skeleton Association (BBSA) contra o veto imposto ao chamado “super capacete”, mantendo a proibição anunciada pela IBSF em 29 de janeiro. A sessão especial do TAS, realizada em Milão no âmbito das diligências olímpicas, confirmou que a peça não está em conformidade com o regulamento técnico da federação internacional.
O capacete, fruto de um investimento público captado por meio de uma loteria — cerca de 7 milhões de libras —, foi apontado pela federação britânica como superior em termos de proteção e segurança. Na prática, contudo, a sua principal diferença é estética e funcional: uma parte traseira saliente projetada para otimizar a aerodinâmica. Esse desenho ajudou atletas como Matt Weston e Marcus Wyatt a vencerem sete provas da Coppa del Mondo ao longo da temporada, o que transformou o capacete em peça-chave da estratégia competitiva britânica.
Para o TAS, entretanto, o equipamento diverge do modelo padrão previsto nas normas da IBSF e por isso não pode ser autorizado. A decisão reforça um ponto central do debate contemporâneo sobre esporte tecnológico: a linha entre inovação legítima, segurança e vantagem competitiva excessiva é, muitas vezes, definida por regulamentos que nem sempre acompanham a velocidade das pesquisas e dos investimentos.
A iniciativa do Reino Unido em financiar um programa ambicioso de desenvolvimento para o skeleton remete conscientemente ao projeto que, no final dos anos 1990, transformou Londres em potência do ciclismo de pista. O capacete, cujo formato lembra modelos usados no ciclismo, faz parte dessa tentativa de replicar uma fórmula de sucesso — investimento, ciência do esporte e centralização de recursos — aplicada a uma modalidade de alto risco e baixo aparato técnico.
Natalie Dunman, diretora de performance da BBSA, expressou decepção com a decisão, afirmando que “nosso recurso tinha bases sólidas”, mas reiterou que o veredito não abala a preparação, a concentração nem o otimismo da equipe para as provas que começam em breve em Milano Cortina.
Com o veto mantido, os atletas britânicos deverão competir com os capacetes utilizados na temporada anterior. Ainda assim, Matt Weston segue como favorito declarado ao ouro e Marcus Wyatt é apontado como possível medalhista — um lembrete de que desempenho e equipamento são fatores interconectados, mas nem sempre sinônimos.
A decisão do TAS antecipa outra discussão inevitável: as regras de segurança e homologação que a IBSF pretende introduzir a partir da temporada 2026/2027. Se a federação internacional reforçar padrões, o confronto entre inovação técnica e regulamentação institucional ficará menos sujeito a interpretações pontuais e mais à padronização de um mercado tecnológico crescente no esporte de inverno.
Do ponto de vista institucional e cultural, o episódio revela duas coisas: a persistente vontade britânica de transformar investimento em hegemonia esportiva e a dificuldade das instâncias reguladoras em equilibrar proteção ao atleta, justiça competitiva e estímulo à inovação. É um debate que ultrapassa as pistas geladas e toca no coração das políticas esportivas contemporâneas.






















