Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
Na pista Olimpia delle Tofane, a prova feminina de discesa livre em Milano-Cortina 2026 apresentou, em poucas e intensas passagens, tudo o que o esporte moderno traz de glória e de risco. A italiana Sofia Goggia garantiu a medalha de bronze com o tempo de 1:36.69, atrás da americana Breezy Johnson, que foi ouro em 1:36.10, e da alemã Emma Aicher, prata em 1:36.14.
Para a Itália, o pódio de Goggia representa mais do que uma conquista individual: é a quarta medalha do país na abertura dos Jogos, e reafirma o papel do esporte como veículo de identidade regional e nacional. Nascida em Bergamo, Goggia soma agora o terceiro pódio olímpico de sua carreira — depois do ouro em PyeongChang e da prata em Pequim — e confirma a continuidade de uma geração que carrega na trajetória a memória de sucessos recentes.
A prova, porém, ficou marcada também por um episódio dramático: a lenda do esqui americano Lindsey Vonn, de 41 anos, sofreu uma forte queda logo após um salto, poucas portas após a largada. A competição foi temporariamente interrompida para atendimento, enquanto os médicos prestavam socorro. Vonn, que havia retornado às competições apesar de ter suportado nos últimos dias um dano grave no joelho esquerdo — descrito como ruptura total do ligamento cruzado ocorrida cerca de uma semana antes —, ficou alguns instantes no solo; felizmente ela estava consciente e conseguia se mexer, embora em evidente dor.
O impacto simbólico da queda de Vonn é complexo. Trata-se de uma atleta que transcende resultados: sua volta às pistas, aos 41 anos, era uma narrativa de resistência e nostalgia para o circuito. Ao mesmo tempo, o acidente reaviva debates sobre segurança, timing de retornos após lesões graves e a responsabilidade de equipes médicas e federações diante de riscos previsíveis em provas de alta velocidade.
Entre as outras italianas, Federica Brignone vinha rodeada de expectativa e terminou na 10ª colocação; Laura Pirovano foi sexta e Nicol Delago ficou em 11º. Brignone, que enfrentou incertezas nos dias prévios por causa de sua própria recuperação, resumiu em palavras a tensão de competir sob limites físicos: disse estar satisfeita por ter chegado à largada e por ter conseguido completar a prova, valorizando a presença e o esforço acima do resultado imediato.
O episódio em Cortina recorda que o esqui de elite é, simultaneamente, espetáculo, política de corpo e gestão de risco. Pódios como o de Goggia consolidam narrativas coletivas — da cidade, da região e da nação — enquanto quedas como a de Vonn apontam, cruas, para os limites do corpo humano e para a obrigação institucional de proteger quem ainda assim escolhe competir.
Em meio a celebrações e preocupações, Milano-Cortina segue escrevendo capítulos que serão lembrados não apenas pelos tempos, mas pelo que representam na memória esportiva da Itália e do circuito internacional.
Otávio Marchesini, repórter e analista da Espresso Italia






















