Por Stella Ferrari — Em uma manobra que redesenha o painel de comando do jornal, o Washington Post anunciou a saída imediata do CEO e diretor editorial Will Lewis. A decisão ocorre dias depois de a redação enfrentar cortes drásticos de pessoal que provocaram forte reação de leitores e jornalistas e intensificaram um debate sobre a independência editorial da publicação.
Segundo comunicado interno compartilhado nas redes sociais por um repórter do veículo, Lewis afirmou que “é o momento certo para me retirar”. A direção do Post confirmou que o executivo Jeff D’Onofrio — ex-CEO da plataforma Tumblr e que assumiu a função de diretor financeiro no ano passado — assume o posto “com efeito imediato”.
Os cortes anunciados na terça-feira atingiram centenas de profissionais: reportagens indicam que aproximadamente 300 dos 800 jornalistas do jornal foram demitidos, segundo levantamento do New York Times. Entre os setores mais afetados estão as coberturas estrangeira — com a demissão de toda a equipe no Médio Oriente —, a correspondente baseada em Kiev, redações locais, esportivas e de arte-final. O podcast diário Post Reports foi suspenso, conforme relatos da imprensa local.
As medidas desencadearam protestos: centenas de pessoas se reuniram na quinta-feira em frente à sede central no centro de Washington para manifestar descontentamento com as demissões e a direção editorial. Em sua nota à equipe, Lewis afirmou que decisões difíceis foram tomadas para garantir um futuro sustentável ao jornal e preservar a capacidade de publicar “notícias imparciais de alta qualidade” por anos.
O cenário corporativo e editorial do Washington Post tem sido marcado por tensões entre a direção e a redação. A intervenção do proprietário, o bilionário Jeff Bezos, também está no centro da controvérsia: Bezos chegou a bloquear a publicação de um endosso à candidata democrata Kamala Harris poucos dias antes da eleição presidencial de 2024, gesto que quebrou o chamado “muro da independência” entre propriedade e redação e foi interpretado por muitos como um aceno em direção a Donald Trump. O episódio precipitou uma crise interna e um êxodo de assinantes.
Fontes da imprensa financeira relataram que cerca de 250 mil assinantes digitais deixaram o jornal após a controvérsia do endosso, e que as perdas em 2024 chegaram a aproximadamente US$ 100 milhões, agravadas pela queda de receita publicitária e assinaturas. Para um veículo que exerce papel relevante no ecossistema de notícias, essas cifras equivalem a uma perda de tração significativa — como se o motor da economia editorial tivesse perdido cilindros essenciais, exigindo nova calibragem estratégica.
A substituição de Will Lewis por Jeff D’Onofrio indica uma leitura corporativa mais técnica e financeira do desafio imediato: equilibrar receitas, cortar custos e restaurar confiança entre leitores. Ainda assim, a comunidade jornalística aponta para riscos reputacionais e para o impacto de longo prazo sobre a qualidade do produto editorial. Em termos de governança, a situação revela a tensão permanente entre modelo de negócios e independência editorial — uma questão que continuará a moldar a trajetória do jornal nas próximas semanas.
Como estrategista de mercados e observadora do setor, vejo esse movimento como uma reconfiguração de motor e direção: é uma tentativa de recuperar estabilidade operacional, mas sem uma estratégia clara de reconquista de assinantes e reputação, os freios fiscais e cortes podem comprometer a aceleração necessária para retomar crescimento sustentável.






















