Portugal dirige hoje um movimento decisivo no tabuleiro da sua democracia: mais de 11 milhões de eleitores são chamados às urnas para o segundo turno das eleições presidenciais, cujo vencedor substituirá Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém. O confronto opõe o ex-ministro socialista António José Seguro, 63 anos, ao líder da extrema-direita do Chega, André Ventura, 43 anos.
O embate assume contornos quase existenciais para o sistema político português: de um lado, a figura que se propõe como guardião das instituições forjadas após a queda da ditadura; do outro, o candidato que promete um ribaltamento do status quo, apontando para uma mudança profunda na orientação das políticas e na arquitetura do poder. Para entender em termos de estratégia: trata-se de um movimento entre alicerces fragilizados da diplomacia interna e a tentativa de redesenho de fronteiras invisíveis do espaço político.
António José Seguro aparece nas sondagens em vantagem clara e recebe o apoio mais ou menos tácito dos partidos tradicionais, naquilo que é frequentemente descrito como um cordão sanitário contra forças antisistema. Defende um perfil moderado e insiste que o papel do Presidente é sobretudo o de árbitro e ouvinte das populações — postura que o levou a concentrar a campanha nas zonas mais afetadas pelas recentes tempestades, dialogando com residentes e sublinhando que a escuta e a coordenação institucional são competências centrais do cargo.
André Ventura, por sua vez, radicaliza a proposta e promete “o maior cambio no sistema político desde o 25 de Abril de 1974”. Ventura reivindica para si a condição de democrata e apresenta-se como alternativa a um duopólio partidário — socialista e social-democrata — que, segundo ele, falhou a gestão do país nas últimas décadas. Para além dos discursos, investiu em ações simbólicas: distribuição de donativos, visitas a fábricas afetadas e presença junto das populações atingidas pelas inundações.
No único debate televisivo entre ambos, a disputa centrou-se também na natureza do cargo presidencial. Seguro acusou Ventura de ambicionar poderes executivos — a condição de primeiro-ministro de fato — o que, segundo Seguro, tornaria incoerente a sua candidatura a um posto que, em essência, deve ser de supervisão. Ventura reverteu a crítica, acusando Seguro de inércia e de aspirar a um papel análogo ao de uma “rainha regente” distante dos desafios concretos.
Os números oficiais e os estudos de opinião delineiam um quadro favorável a Seguro. A mais recente sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica do Porto aponta para cerca de 67% dos votos para Seguro contra 33% para Ventura; incluindo indecisos e não respostas, os valores estimados desciam, respectivamente, para 56% e 25%.
Recorde-se que o primeiro turno, realizado a 18 de janeiro, já tinha deixado indícios da configuração atual: Seguro liderou com 1.755.563 votos (31,11%), seguido por Ventura com 1.327.021 votos (23,52%). O avanço do líder do Chega no primeiro escrutínio foi, em parte, favorecido pelo fragmento do centro-direita, que se apresentou dividido.
Enquanto as campanhas do segundo turno se desenrolaram, ambos os candidatos concentraram atos nos territórios mais duramente atingidos pelas intempéries — gesto que, além do apelo humanitário, configura uma jogada estratégica para conquistar eleitores indecisos e demonstrar competência em gestão de crises, um dos principais temas de governo e presidência em contextos de instabilidade climática e econômica.
Na balança final, a escolha dos portugueses não será apenas sobre dois rostos, mas sobre um modelo de Estado: a manutenção das garantias e consensos que emergiram da transição democrática ou a aposta numa bifurcação que procura alterar profundamente o eixo de influência do sistema partidário. É um lance com consequências para a ordem interna e para a projeção externa de Portugal, um país cuja estabilidade tem reflexos na cartografia política da Europa ocidental.
Do ponto de vista estratégico, qualquer que seja o vencedor, o resultado traçará os contornos de uma nova fase política — ora de preservação dos equilíbrios, ora de tensão entre institucionalidade e renovação populista. Para observadores e decisores externos, o pleito será lido como um movimento tectônico: um indicador das fragilidades e resiliências do sistema democrático lusitano.






















