Em uma cena que mistura competição, espetáculo e simbolismo, Eva Adamczykova venceu em Milano Cortina e celebrou o triunfo desenhando um pequeno bigode no rosto — um gesto de escaramuça pessoal que rapidamente virou imagem da prova. A snowboarder tcheca, olímpica em Sochi 2014, retorna aos holofotes depois de uma carreira marcada por lesões e opções que transcenderam a pista.
A vitória em Milano Cortina tem, portanto, mais camadas do que a crônica de um pódio. É o regresso de uma atleta que teve de renascer após um problema físico que a impediu de participar dos Jogos de Pequim 2022. É também o triunfo de uma figura que soube transformar a própria imagem em canal de atração para públicos novos, longe do circuito tradicional do esporte.
No final de 2023, Adamczykova trocou a prancha e os óculos por paetês e salto alto ao participar da versão praguense de “Ballando con le stelle“. “Era um sonho meu”, disse ela ao lembrar da experiência — um período que chegou até a coincidir com o início da temporada de snowboard cross 2023/24. A passagem pela televisão rendeu à atleta cerca de 50.000 novos seguidores nas redes sociais, segundo suas próprias palavras, abrindo uma nova relação com o público: fãs que talvez nunca tenham assistido a uma prova, mas passaram a acompanhá-la pela narrativa midiática.
Adamczykova admitiu que a dança a transformou fisicamente e psicologicamente. “Fiz tudo por mim mesma, e foi uma oportunidade incrível. Dançar durante horas muda seu corpo e sua percepção — fiquei mais magra e mais consciente do meu corpo”, afirmou. Para uma modalidade como o snowboard, em especial o snowboard cross, essa percepção corporal e resistência podem ser diferenciais importantes.
Mas a história dela também é feita de limites físicos: tornozelos fragilizados e a memória de lesões que exigiram pausas e cautela. Retornar ao ápice competitivo após esses episódios exige gestão médica, treino cerebral e uma leitura realista das expectativas — algo que Adamczykova parece administrar com um misto de pragmatismo e humor, simbolizado pelo gesto do bigode.
Na dimensão mais ampla, a trajetória de Adamczykova ilustra como o esporte contemporâneo dialoga com a cultura popular: atletas buscam plataformas de visibilidade que ampliem suas vozes, ao mesmo tempo em que o espetáculo e o rendimento técnico mantêm sua autonomia. A tcheca, com sua mistura de rigor competitivo e apelo televisivo, encarna essa tensão produtiva.
Em Milano Cortina, o gesto simples de desenhar um bigode não reduziu a vitória a uma cena de folclore; ao contrário, acrescentou uma legenda cultural sobre superstição, estratégia de imagem e o direito do atleta de recodificar sua própria narrativa. Para quem observa o esporte como retrato social, a imagem é reveladora: a pista é o palco, mas a plateia está cada vez mais além do limite do gramado de neve.
Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















