Por Otávio Marchesini — Em um gesto que já começa a ser interpretado como signo, J.D. Vance voltou a ser notícia em Milano Cortina 2026 após sua presença nas arquibancadas coincidir com um início firme da seleção americana no hóquei feminino. Sentado na tribuna vip, trajando um moletom azul com a inscrição USA, o senador norte-americano acompanhou a partida em que as americanas abriram vantagem e chegaram a liderar por 3 a 0 diante da Finlândia.
O episódio repete um padrão percebido na edição anterior do torneio: já no jogo contra a República Tcheca, em 5 de fevereiro, a presença de Vance nas arquibancadas coincidira com um início avassalador das atletas norte-americanas. É nesse ponto que a reportagem precisa separar o fato — a coincidência cronológica — da interpretação. Afinal, o esporte, sobretudo em grandes eventos como os Jogos de Inverno, é um terreno fértil para atribuições simbólicas que dizem mais sobre as emoções coletivas do que sobre causalidade direta.
Quando o senador deixou a tribuna, acompanhado pela comitiva de segurança, ouviu-se um episódio breve de vaias de parte das arquibancadas. A manifestação, rápida e localizada, não escalou: tratou-se de um sinal de contestação pontual, cujo conteúdo político ultrapassa o resultado esportivo, mas que ilustra bem como a figura de um político, estrangeiro e polarizador, pode alterar o tom de um ambiente que buscava ser estritamente competitivo.
Do ponto de vista esportivo, a partida consolidou a superioridade tática e técnica das americanas naquele período do jogo. A equipe mostrou fluidez ofensiva e solidez defensiva, chegando ao 3 a 0 com eficácia e aproveitamento das oportunidades. Para além do placar, porém, o acontecimento merece ser lido como um espelho das interseções entre esporte e arena pública: atletas, arquibancadas, figuras políticas e reações populares compõem um mosaico que fala tanto de identidade nacional quanto de representação simbólica em solo estrangeiro.
Como analista interessado nas tramas que atravessam o esporte moderno, não é produtivo reduzir o fenômeno a superstição isolada. Mas tampouco é neutro: a repetição da coincidência — Vance presente e as americanas abrindo vantagem — alimenta narrativas, repercute nas mídias e contribui para a mitologia dos jogos. A história do hóquei feminino em Milano Cortina 2026 passa, assim, por episódios que tangenciam a política e a cultura, lembrando que as grandes competições sempre funcionaram como palcos onde se encenam, simultaneamente, habilidades atléticas e tensões sociais.
Resta acompanhar os desdobramentos: se o padrão se firmar, será curioso observar como treinadores, jogadoras e público vão reagir à noção de um ‘portafortuna’ presente nas tribunas. Por ora, a cena — um homem de azul e a seleção americana assinalando gols — fica registrada como mais uma interseção entre poder simbólico e performance esportiva em um evento que pretende, acima de tudo, reunir o mundo sob o signo da competição e do espetáculo.






















