Por trás do riso, há sempre um espelho do nosso tempo. Foi com esse gesto — ao mesmo tempo provocador e quase cinematográfico — que Andrea Pucci reagiu ao anúncio de sua participação em Sanremo 2026. Nas redes sociais, o humorista publicou uma foto na beira do mar, visto de perfil e completamente nu, acompanhada da legenda: “Sanremo… sto arrivando”. O post imediatamente virou matéria-prima para o algoritmo e para as salas de comentário, justamente porque transforma a chegada a um palco histórico numa imagem forte e simples: o corpo como roteiro.
O próprio festival confirmou que Andrea Pucci será co-condutor da terceira serata, marcada para quinta-feira, 26 de fevereiro. A presença dele no palco do Ariston já era aguardada como um elemento de quebra de tom — e agora chega com um gesto performático que faz pensar na semiótica do viral: não é só uma piada, é um reframe da expectativa do público sobre o que deve acontecer quando uma personalidade entra no universo ritualizado de Sanremo.
Entre as reações, sobressaiu o comentário bem-humorado de Carlo Conti, que escreveu pedindo moderação: “Però sul palco dell’Ariston mettiti almeno un costumino!!!”. Pucci respondeu, numa mistura de riso e mistério: “ahahhahahhahahahahahahah boh vediamo” — traduzindo o verniz galego do comediante: talvez improvise, talvez respeite a etiqueta do palco. Esse diálogo público funciona como um prólogo que antecipa a interação entre tradição e ruptura que costuma marcar cada edição do festival.
É importante lembrar: o gesto nas redes e a performance no teatro são linguagens distintas. O nude look à beira-mar serve como uma declaração de intenção, um teaser que abre um debate cultural. Na Europa, a provocação nas artes e na comédia tem longa linhagem — vai do neo-realismo que chocava plateias ao cinema experimental que refaz as fronteiras do aceitável. O que vemos aqui é a atualização dessa tradição no cenário digital, onde o corpo, o riso e o palco se entrelaçam num mesmo quadro.
Do ponto de vista prático, porém, é improvável que a Ariston se transforme em extensão da praia: há códigos, figurinos previstos e, sobretudo, o próprio tom do festival a ser preservado. Ainda assim, a mensagem de Pucci exerce sua função: desestabilizar levemente o roteiro da festa e reativar a curiosidade do público. Será que o comediante conseguirá manter o equilíbrio entre a irreverência necessária ao seu ofício e o cerimonial televisivo que Sanremo representa? Essa é a pergunta que fica.
Enquanto o episódio fermenta nas timelines, resta observar o que se seguirá: um número ensaiado, um comentário mordaz durante as noites do festival ou apenas uma história bem contada nas redes, que servirá como prólogo perfeito para a terceira noite. Em qualquer dos cenários, a chegada de Andrea Pucci ao palco do Ariston já tem um roteiro oculto — e nós, espectadores curiosos, aguardamos o desfecho.






















