Sanremo 2026 voltou a funcionar como espelho do nosso tempo. O anúncio da participação de Andrea Pucci — nome artístico de Andrea Baccan — como cocondutor da terceira noite do festival, marcada para 26 de fevereiro, desencadeou uma verdadeira bufera social que mistura crítica política, memória de piadas antigas e defesa da liberdade de expressão.
A escolha feita por Carlo Conti reacendeu debates sobre os limites da satira e sobre o que a presença de um humorista no palco do Ariston comunica ao público. Nas redes, muitas vozes recordaram trechos das piadas de Pucci dirigidas a Elly Schlein e posts em que ele comemorava vitórias do centro-direita — mensagens que para alguns configuram alinhamento político e ofensa.
Entre as críticas, há quem tenha descrito a presença do comediante como “a taxa de TeleMeloni que não merecíamos”, citando episódios em que Pucci teria usado de comparações degradantes, inclusive equiparando Schlein a personagens da comédia popular italiana como Alvaro Vitali e Pippo Franco. Também foram lembradas acusações de piadas homofóbicas envolvendo figuras do entretenimento, como Gabriele Zorzi.
Críticas públicas de comentaristas e internautas marcaram a reação. Selvaggia Lucarelli, por exemplo, republicou histórias do Instagram do próprio comediante para sublinhar o padrão das declarações e a aparente celebração de resultados eleitorais do centro-direita, com menções a nomes como Francesco Rocca e Attilio Fontana.
Do outro lado do tabuleiro, defensores de Andrea Pucci levantam a bandeira da satira e recordam que o comediante enche teatros por toda a Itália. “É um humorista que faz rir, e o palco precisa disso”, argumentam alguns. Outros notaram um tratamento desigual: piadas contra figuras de direita frequentemente são toleradas, mas as mesmas formas aplicadas a figuras de esquerda suscitam reprovação.
Enquanto o debate se inflamava, o próprio artista reagiu com uma imagem e uma legenda que potencializaram ainda mais o burburinho: um post em que aparece nu, de perfil, na beira-mar, com a legenda “Sanremo… sto arrivando”. A imagem não passou despercebida por Carlo Conti, que respondeu em tom bem-humorado: “Però sul palco dell’Ariston mettiti almeno un costumino!!!”. Pucci retribuiu com uma risada e um enigmático “ahahhahahhahahah boh vediamo”.
Mais do que um caso isolado, esta controvérsia funciona como um refrão do nosso tempo — o roteiro oculto que revela tensões entre liberdade artística, expectativas do público e o posicionamento político dos artistas. Em vez de reduzir a cena a maniqueísmos, vale observar o porquê: por que certas piadas ressuscitam feridas públicas? Que tipo de memória coletiva o festival carrega e reorganiza quando decide quem ocupa seus microfones?
Se o Ariston sempre foi palco de entretenimento, nesta edição ele se converte também em palimpsesto: camadas de humor, política e memória se sobrepõem e nos convidam a ler o que fica nas entrelinhas. A chegada anunciada por Pucci é, portanto, menos sobre um número cômico do que sobre o reflexo cultural que essa escolha provoca — e sobre como o público contemporâneo responde a esse espelho.
Independentemente de posições, a tensão está posta: será que o festival conseguirá transformar o episódio em conversa produtiva, ou veremos apenas ecos polarizados? O palco, como sempre, dirá.






















