Após a apresentação de Ghali na cerimônia de abertura dos Jogos de Milano-Cortina, realizada no estádio de San Siro, as redes sociais reacenderam um debate que já vinha nos dias anteriores ao evento: teria havido censura ao rapper durante a transmissão?
Minutos depois da performance, perfis em X e em outras plataformas passaram a questionar o tratamento dado ao artista. Muitas reclamações destacaram que Ghali foi raramente mostrado em primeiro plano, aparecendo quase sempre em tomadas de longe ou aéreas — uma opção de direção que, para vários internautas, não pareceria casual.
Comentários viralizaram com observações como “Ghali Schrödinger: estava e não estava” e críticas ásperas sobre a ausência de close-ups. Para alguns, o uso do playback teria sido uma escolha deliberada para reduzir qualquer possibilidade de improvisação ou de manifestações visuais e verbais por parte do cantor. Uma das postagens mais compartilhadas sugeria que a combinação de playback e enquadramentos estudados visava até evitar que o artista mostrasse um símbolo de apoio à Palestina, por exemplo.
“Nunca um primeiro plano, sempre de longe e ainda falaram por cima durante a apresentação — escandaloso”, escreveu um espectador, enquanto outro reclamou da suposta mistura entre playback e edição de imagem: “Imagens imbarazzanti. Ghali merece respeito. No guerra.”
As críticas não se deram isoladamente: elas se encaixam num contexto pré-existente de tensão. Nas vésperas da cerimônia, Ghali publicara uma longa carta afirmando sentir limitações em sua participação — alegando, entre outras coisas, ter sido excluído de momentos oficiais como a entoação do hino italiano. Suas posições públicas sobre o conflito no Oriente Médio já haviam provocado reações políticas e alimentado discussões sobre o papel do artista em eventos institucionais internacionais.
Do ponto de vista estético e simbólico, a controvérsia expõe um dilema contemporâneo: até que ponto a curadoria de imagens e som em grandes transmissões corresponde a decisões técnicas legítimas ou a um reframe intencional do que é mostrado ao público? O episódio virou, para muitos, um espelho do nosso tempo — onde a imagem pública do artista se torna o palco de batalhas políticas subtis.
Há também quem defenda a diretoria de transmissão: o uso de tomadas amplas e de playback pode ser justificado por razões técnicas e de roteiro do espetáculo, especialmente em eventos de grande escala que exigem sincronização e segurança cênica. Ainda assim, a percepção pública — alimentada pela internet — é difícil de contornar quando já existe um fio narrativo formado sobre controvérsia e silenciamento.
O resultado prático é que a performance de Ghali, em vez de encerrar a polêmica, criou um novo foco de discussão sobre liberdade de expressão, representação e controle editorial em transmissões oficiais. No campo cultural, a situação se transforma em um pequeno caso de estudo sobre como os ritos coletivos contemporâneos — esportivos, institucionais, midiáticos — lidam com vozes dissonantes.
Como observadora que pensa o entretenimento além do entretenimento, é impossível não ver nesse episódio uma série de camadas: a escolha estética e técnica, as consequências políticas das tomadas, e sobretudo o modo como a audiência lê (e reinterpreta) sinais visuais como se fossem declarações em si. Seja pela direção de câmera ou pelo algoritmo das redes, o que se projeta no palco acaba por refletir, em última instância, o roteiro oculto da sociedade.
Enquanto a discussão segue nas redes, resta ao público e aos curadores do evento avaliar se aquilo que foi percebido como silêncio foi, de fato, uma estratégia deliberada — ou apenas a imperfeição técnica de um espetáculo gigantesco. De qualquer forma, a controvérsia de Ghali em San Siro dificilmente sairá do imaginário coletivo tão cedo.
Por Chiara Lombardi, Espresso Italia.






















