Milano Cortina abriu uma janela rara sobre a dinâmica contemporânea do snowboard: a primeira prova a distribuir medalhas na programação, o big air, terminou com o italiano Ian Matteoli na quinta posição, enquanto o pódio foi ocupado por atletas do Leste Asiático. A final, disputada em Livigno, teve espetáculo técnico e risco calculado até o último salto.
A competição consagrou a dobradinha japonesa: a medalha de ouro foi para Kira Kimura, seguida pelo compatriota Ryoma Kimata com a prata. O bronze ficou com o chinês Su Yiming. Matteoli, que havia impressionado nas qualificações, chegou a ocupar a terceira colocação após a terceira rodada, mas acabou sendo superado nas tentativas finais e fechou a prova em quinto.
O resultado de Matteoli merece uma leitura que ultrapassa o simples ranking. O big air é uma disciplina em que a linha entre a glória e a frustração é curta: combina técnica de salto, amplitude, rotação e aterrissagem limpa, e é avaliada por grau de dificuldade e execução. A boa fase do japonês e a presença forte de Su Yiming refletem investimentos e culturas nacionais que, nos últimos anos, elevaram o nível técnico do circuito mundial. Para o atleta italiano, a performance confirma capacidade de estar entre os melhores, mas também evidencia a necessidade de maior consistência em dias de decisão.
Do ponto de vista institucional e cultural, o resultado em Livigno aponta para duas leituras. Primeiro, a crescente exportação de talento asiático em modalidades de neve, que quebra um imaginário europeu de domínio absoluto nessas provas. Segundo, o desempenho de Matteoli reabre a discussão sobre estruturas de formação e suporte ao snowboard italiano: há talento, mas a tradição e a profundidade do elenco ainda ficam aquém das potências emergentes.
Para os torcedores e para o próprio circuito de Milano Cortina, a prova de big air estabeleceu um tom para os Jogos: competições intensas, com ampla interação entre espetáculo e técnica. A subida ao pódio de Kira Kimura e Ryoma Kimata e a presença de Su Yiming reforçam que as grandes decisões frequentemente passam por escolhas estratégicas de risco e inovação técnica — e que o futuro do snowboard competitivo será cada vez mais transnacional.
Matteoli, apesar de não ter alcançado o pódio, sai de Livigno com capital técnico e visibilidade. Resta agora à equipe italiana converter esse potencial em regularidade: aprimorar a preparação para as fases decisivas e calibrar as linhas de salto sob pressão. Para o público italiano, a quinta colocação é, ao mesmo tempo, motivo de orgulho e um lembrete da distância que ainda separa a seleção do topo.
Em suma, o big air de Milano Cortina confirmou tendências recentes do snowboard mundial e colocou Ian Matteoli no centro de um debate legítimo sobre formação, ambição e identidade esportiva na Itália contemporânea.






















