Por Chiara Lombardi para Espresso Italia — Michele Bravi volta ao palco de Sanremo 2026 com uma proposta que é ao mesmo tempo íntima e orquestral. O single “Prima o poi”, assinado por Bravi com Rondine e Gianmarco Grande e produzido por ele em parceria com Carlo Di Francesco, nasce como uma dedicatória a quem já se sentiu fora de cena — esse universo de deslocamento que, como um roteiro mal costurado, revela mais do que esconde.
No festival, a direção musical ficará a cargo do Maestro Alterisio Paoletti. Na tradicional serata dei duetti, Michele Bravi dividirá o palco com a amiga Fiorella Mannoia, em uma leitura de “Domani è un altro giorno”, imortalizada por Ornella Vanoni. A estratégia é clara: aliar a potência orquestral do festival a uma interpretação que privilegia a sinceridade dramática — um efeito que costumo chamar de espelho do nosso tempo, quando a música reflete fissuras individuais para falar de coletividade.
Além do palco, Bravi prepara novidades: um novo projeto discográfico para o verão, uma turnê subsequente e uma incursão no cinema com um papel inédito. Para o videoclipe de “Prima o poi”, a novidade é ainda mais saborosa: a atriz Ilenia Pastorelli assina sua primeira direção, escrevendo e dirigindo sua própria interpretação do tema. Bravi conta ter conseguido persuadi-la a aceitar o desafio — e o resultado, segundo ele, é forte e pessoal.
O que me interessa, como observadora do zeitgeist cultural, é o modo como Bravi enuncia a sua goffaggine (aquela desajeitada humanidade que insiste em não se enquadrar). Ele não a define como defeito a ser corrigido, mas como traço que ensina a conviver e a brincar com a vida. A imagem é cinematográfica: temos uma ideia prévia de como o plano deveria se desenrolar — sol para alegria, chuva para melancolia — e a realidade impõe uma mise-en-scène torta, com humor involuntário e uma estética do deslocamento.
Sobre seu retorno, Bravi lembra o primeiro Sanremo (2017), quando Carlo Conti o revelou para um público maior, transformando a música em ofício. O festival de 2022, por outro lado, foi marcado pela bolha da pandemia: uma edição incompleta, fora de ritmo. Agora, ele se descreve como um filho pródigo que volta mais preparado, mais profissional, porém mantendo aquela imperfeição que o torna humano — a mesma que, disse, poderia fazê-lo até comediante.
Uma nota sobre o debate público: ao comentar figuras como Ghali, Bravi afirmou que “um artista que expressa o seu pensamento não é dissenso” — um princípio simples e essencial num cenário de transformação onde a semiótica do viral e o discurso artístico se confundem. Essa colocação posiciona Bravi não apenas como intérprete, mas como voz reflexiva dentro de um ecossistema cultural maior, preocupado com liberdade de expressão e com o papel da arte como agente crítico.
Em resumo, Michele Bravi chega a Sanremo 2026 com um projeto que conjuga orquestra, cinema e autenticidade desajeitada. É o tipo de retorno que funciona como reframe da sua trajetória: não apenas um ato performático, mas um pequeno manifesto sobre pertencer e errar, sobre a beleza de não caber certinho no molde. No palco, ele buscará traduzir essa fragilidade em música — e nós, espectadores, veremos se o espelho que ele nos oferece nos devolve a imagem desejada.






















