Por Chiara Lombardi — A noite de abertura das Olimpíadas Milano-Cortina deveria ser um desses momentos em que a imagem fala por si — um quadro cuidadosamente composto, quase uma sequência cinematográfica. Em vez disso, a transmissão da Rai ficou marcada por comentários desconectados e uma sucessão de lapsos que transformaram o espetáculo em um pequeno laboratório do zeitgeist. No centro disso tudo, Paolo Petrecca, diretor da RaiSport, que entrou na narração em caráter de urgência, substituindo Auro Bulbarelli.
A substituição já tinha tempero político: Bulbarelli fora afastado depois de ter antecipado em coletiva a participação do Presidente Mattarella no desfile — um spoiler que custou o lugar no estúdio. No entanto, a entrada de Petrecca não trouxe a contenção esperada. Ao longo das mais de três horas de transmissão, o comentário soou muitas vezes como um ruído que concorria com as imagens, quando, como sabemos, no bom roteiro televisivo muitas vezes as imagens bastam.
Houveram erros factuais que chamaram atenção imediata: Petrecca confundiu a atriz Matilda De Angelis com Mariah Carey, apresentou a presidente do COI como se fosse “a filha de Mattarella” e teve dificuldades para identificar atletas do voleibol, chegando a dizer “me parece ver Paola Egonu” quando os quadros mostravam outras figuras. Em outro momento, ao falar do Cazaquistão, afirmou que o país teria “quatro atletas, sete dos quais no esqui cross-country” — um deslize que desafia a lógica básica dos números.
Mas as gafes excederam a esfera factual e mergulharam no território dos estereótipos: brasileiros “com a música no sangue”, espanhóis sempre “calientes”, africanos associados a ritos de vodu, árabes reduzidos a escolhas de vestuário. É preocupante quando o comentário público reproduz clichés que simplificam culturas inteiras; esse tipo de frase atua como um espelho distorcido, refletindo ansiedades e atalhos interpretativos do nosso tempo.
Houve ainda uma tentativa de piada sobre Verdi, Rossini e Puccini — “Se Puccini se chamasse Bianchini teríamos Rossini, Bianchini e Verdi” — cujo crédito pertence ao escritor Fabio Genovesi. Erros de atribuição são corriqueiros, mas multiplicados na transmissão ao vivo ganham uma ressonância maior: não é apenas sobre quem disse o quê, é sobre a seriedade do comentário num cenário de prestígio cultural.
Curiosamente, Petrecca evitou mencionar o rapper Ghali durante a apresentação do artista, numa omissão que soou quase como um apagamento consciente frente às controvérsias que precederam sua participação. E tudo isso em um contexto em que a própria Rai é percebida como um palco onde afiliações políticas frequentemente atravessam escolhas editoriais. Dito de forma direta: numa emissora com constantes pressões internas, a presença de um comentarista com alinhamentos políticos questionados acabou por parecer uma escolha surpreendente.
O episódio nos convida a refletir sobre o papel do comentário televisivo: quando o narrador fala demais, sem filtro nem precisão, ele não só atrapalha as imagens, como também revela o roteiro oculto de preconceitos que circulam no discurso público. A cerimônia foi, afinal, rica em simbologia — uma tentativa de narrar a Itália contemporânea — e merecia um comentário à altura, capaz de ler o espetáculo como um cenário de transformação e não como um catálogo de estereótipos.
Em tempos em que o entretenimento funciona como espelho da sociedade, o papel do comentarista deveria ser o de um editor crítico: escolher as palavras como quem compõe um plano-sequência, sabendo quando silenciar e quando contextualizar. Na noite da abertura, esse equilíbrio ficou pendente — um lembrete de que, por trás de cada transmissão, existe sempre um roteiro humano, com falhas e escolhas que dizem muito sobre nós.






















