União Europeia persiste na via das medidas punitivas contra Moscou, mesmo com esforços diplomáticos conturbados entre as partes para encerrar o conflito na Ucrânia. Na esteira do fracasso substantivo do encontro trilateral EUA-Ucrânia-Rússia em Abu Dhabi — que resultou apenas na troca de 314 prisioneiros e deixou intocados os pontos centrais sobre territórios — a Comissão Europeia e o Serviço Europeu de Ação Externa apresentaram um novo pacote sancionatório, o vigésimo desde o início das hostilidades.
Em Bruxelas, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, não hesitou em justificar a iniciativa com uma frase calculada: “é a única linguagem que Putin entende”. A declaração, em tom de firmeza, pretende demonstrar que a pressão económica e financeira é o instrumento que forçaria a Rússia a regressar ao tabuleiro das negociações com intenções sinceras.
Mas a realidade económica e estratégica oferece fendas na narrativa oficial: relatórios recentes, como o do think tank Ember, apontam para um aumento de 18% nas importações de gás russo pela UE em 2024, ao passo que diversos indicadores mostram limitada eficácia real das medidas anteriores. Ao mesmo tempo, os custos políticos e financeiros suportados pelos aliados são elevados — recorda-se o montante já empenhado de 193,3 mil milhões de euros, o congelamento de cerca de 210 milhões em ativos russos e a intensa campanha cultural e mediática contra figuras tidas como pró-Moscou.
O novo pacote, apresentado ontem pela Comissão, será discutido pelos embaixadores dos Estados-membros em reunião prevista para a tarde de segunda-feira, 9 de fevereiro. Entre as medidas delineadas figuram sanções direcionadas a mais de 20 bancos russos, restrições a atividades vinculadas a refinarias (algumas já avariadas por ataques ucranianos, com o objetivo declarado de impedir que operadores da UE participem nas reparações) e sanções contra empresas envolvidas em prospecção e exploração de hidrocarbonetos e outros setores críticos.
Do ponto de vista diplomático, persiste a polarização essencial: Moscou reivindica a soberania sobre extensas porções do Donbass, Crimeia, Zaporizhzhia, Kherson e Sumy; Kiev reclama o congelamento da guerra ao longo da linha de frente atual e garantias de segurança internacionais. Nessa encruzilhada, Bruxelas aposta numa proteção econômica sistémica a favor do aliado ucraniano, pressionando para decisões “rápidas” que, na sua visão, minem setores-chaves da economia russa, desde serviços financeiros até energia e comércio.
Há, porém, um reconhecimento pragmático que começa a emergir nos corredores europeus: após quatro anos, a própria União aprecia que apenas a via diplomática poderá concretizar a paz, admitindo que um acordo com o Kremlin será, em última instância, necessário para a cessação efetiva do conflito. Esta admissão não anula a aposta nas sanções, mas sublinha a complexidade do jogo — onde sanções e diálogo se alternam como peças num tabuleiro de xadrez geopolítico.
Na avaliação estratégica, a iniciativa europeia é ao mesmo tempo um sinal de solidariedade com Kiev e um movimento para consolidar a posição do bloco no teatro euro-asiático. Contudo, os alicerces desta diplomacia coercitiva mostram-se frágeis quando confrontados com evidências de continuidade do fluxo energético russo para o mercado europeu e com os custos acumulados pela própria coalizão ocidental.
Para além do imediato diplomático e económico, o velho exercício de cartografia do poder continua: quem move as peças hoje pode alterar linhas de fronteira invisíveis amanhã. Resta ver se o vigésimo pacote será um movimento decisivo que empurra Moscou de volta para a mesa de negociações ou apenas mais um passo numa tectônica de poder que alonga o conflito.
Marco Severini
Analista sênior de geopolítica e estratégia internacional — Espresso Italia






















