Por Marco Severini
Os Estados Unidos e o Irã voltam a mover uma peça importante no tabuleiro diplomático:, anunciou o presidente americano, Donald Trump, os colóquios serão retomados na próxima semana em solo estadunidense. O gesto vem acompanhado de uma declaração direta do chefe da Casa Branca: “O Irã quer um acordo” e “há todo o tempo para um acordo” sobre o espinhoso dossiê nuclear.
Do outro lado, Teerã respondeu com um aviso firme e estratégico: se atacado, o Irã atingirá as bases americanas na região. A mensagem sublinha a dualidade do cenário atual — negociações diplomáticas em paralelo com ameaças explícitas — e revela a tectônica de poder que molda a confrontação.
Fontes iranianas, citadas pelos interlocutores do processo, indicam que a República Islâmica manteve posição inalterada sobre o ponto mais sensível das conversas: o enriquecimento de urânio. O negociador Abbas Araghchi, presente nas rodadas anteriores, declarou que Teerã se recusou a suspender ou deslocar para o exterior seu programa de enriquecimento — tratado, segundo as fontes, como “o único tema discutido” no primeiro ciclo de contactos.
Ao mesmo tempo, Washington combina a abertura de canal diplomático com uma tática económica de aperto: novas medidas punitivas em preparação. Entre as opções, uma ordem presidencial indica a possibilidade de aplicar tarifas adicionais — com o exemplo explícito de 25% — a bens importados por qualquer país que “compre, importe ou adquira de outra forma bens ou serviços do Irã, direta ou indiretamente”. Relatos também colocam na mira países que mantêm comércio de petróleo com Teerã e até 14 petroleiros vinculados à troca de hidrocarbonetos iranianos.
A estratégia americana traduz um princípio clássico da “pressão máxima” — um intento de estreitar os alicerces financeiros do adversário para ganhar vantagem no tabuleiro negocial. É, porém, uma jogada que carrega riscos de escalada: sancionar terceiros e penalizar rotas comerciais tende a deslocar e recompor eixos de influência regionais, com consequências imprevisíveis para parceiros e aliados.
Nos bastidores, os canais indiretos por via de países terceiros — lembrando-se das conversações anteriores em Omã — continuam a operar. A arquitetura dessas comunicações é a prova de que, mesmo quando as palavras públicas são ríspidas, o caminhamento diplomático busca rotas discretas para evitar um choque direto.
Como analista que observa o jogo com olhar cartesiano, é possível ler dois movimentos simultâneos: um, de abertura dialógica para preservar mecanismos de contenção; outro, de endurecimento sancionatório para forçar concessões. Ambos coexistem e remetem a uma velha regra da Realpolitik: a mesa de negociações e o arsenal de pressão são faces de uma mesma moeda de política externa.
O desfecho permanece incerto. A iniciativa de retomar os colóquios nos EUA oferece uma janela para reduzir tensões, mas a insistência iraniana em manter o enriquecimento e as medidas coercitivas norte-americanas elevam a probabilidade de impasses. A estabilidade regional dependerá da capacidade das partes em traduzir interesses nacionais em concessões aceitáveis, sem que a tectônica de poder provoque deslocamentos violentos no tabuleiro.
Em suma, a próxima semana será um momento decisivo: um movimento que pode inaugurar um caminho de mitigação — ou acarretar um redesenho de fronteiras invisíveis nas dinâmicas de influência do Oriente Médio.






















