Por Chiara Lombardi — No roteiro sempre mutável do nosso tempo, os livros funcionam como espelhos e mapas: refletem fantasmas coletivos e desenham rotas de sentido. Nesta semana, a seleção da Espresso Italia atravessa gêneros — do romance íntimo ao noir urbano, da investigação histórica à prosa ensaística — para mostrar como a literatura continua a reframear a realidade.
Dimmi di te, o novo romance de Chiara Gamberale, desembarca nas livrarias em 12 de fevereiro. A autora constrói um retrato feminino que é ao mesmo tempo pessoal e social: uma mulher que se torna mãe quase por acaso, deslocada num bairro que não reconhece como seu, vê sua inquietude transformar-se em pergunta. Sem trabalho, sem amor, sem sonhos aparentes, ela recorre a lembranças e reencontros — telefonemas a amores idealizados, ao colega revolucionário, ao garoto exemplar da escola — para interrogar a própria capacidade de crescer sem se perder. Gamberale oferece um itinerário interior onde cada diálogo funciona como espelho: um convite a transformar a palude íntima em mar aberto. A linguagem é direta, mas o efeito é o de um roteiro emocional, que fala de escolhas, remissões e da tenacidade do desejo.
Na vereda mais sombria do policial, Alessandro Bongiorni chega com Uomini a pezzi (Il Giallo Mondadori), um noir que parece herdar o pulso de Don Winslow e James Ellroy. O protagonista, o vice‑comissário Rudi Carrera, é um homem em frangalhos: perdeu companheira, amigo e várias vidas que não conseguiu proteger. A morte por overdose de Teresa — informante, mãe solo, exdependente com sonho musical — desencadeia uma investigação que o leva ao universo trapper e, logo em seguida, ao subterrâneo mais abjeto: o comércio ilegal de órgãos. Entre periferias como Lambrate e corredores hospitalares, Bongiorni constrói um thriller urgente sobre culpa, falência das instituições e a mercantilização da sobrevivência humana.
Da ficção de cidade ao frio da frente de guerra, Olivier Norek apresenta I guerrieri d’inverno, ambientado na Finlândia de 1939. O jovem Simo, treinado desde a infância a decifrar a floresta, habita um cenário onde silêncio e natureza escondem vozes e segredos. Norek transforma paisagem em personagem: o bosque é um palco de sobrevivência e de escolhas éticas, um microcosmo onde se testam coragem, lealdade e a ambiguidade moral do homem em tempos extremos.
Também entre as mesas editoriais celebramos a reedição de L’umana sete di prefazioni. Testi liminari 1956-2015, uma coletânea que marca os dez anos da morte de Umberto Eco. Prefácios e textos liminares são, aqui, uma arqueologia das palavras de apresentação — como pequenos faróis que iluminam obras e leitores, revelando leituras e passos de um ofício crítico que atravessou décadas.
Completa a seleção o aceno a títulos de não‑ficção que revisitavam casos jurídicos e biografias de figuras que desafiaram regimes — da controversa investigação sobre Garlasco a obras que recontam episódios de resistência, como l’uomo che sfidò Mussolini. Esses livros funcionam como documentos e como espelhos do nosso tempo: lembram que a cultura é também vigilância e memória.
Em conjunto, estes lançamentos convidam o leitor a um ato de interpretação: ler é reencontrar‑se, é decifrar um roteiro oculto que liga passado e presente, indivíduo e coletivo. Seja numa prosa íntima, num thriller urbano ou numa reconstrução histórica, a nova safra editorial confirma que o livro permanece um ator decisivo no palco do debate público — o cenários de transformação que tanto nos interessa observar.

















