Apuração de Giulliano Martini. A uma semana do início oficial do Carnevale, as vitrines das confeitarias, padarias e supermercados já exibem em profusão os tradicionais doces fritos — conhecidos por nomes variados ao longo da península italiana, mas unanimemente associados à fritura: frappe, chiacchiere, castagnole e similares. A discussão sobre possíveis riscos à saúde retorna todos os anos; a pergunta que se impõe é se devemos realmente temer essas guloseimas.
Em entrevista à Adnkronos Salute, o nutricionista e divulgador Ciro Vestita adota tom de contenção técnica: “o mote dos antigos ‘semel in anno licet insanire’ (uma vez por ano é lícito fazer loucuras) se aplica bem aqui”. Vestita alerta que o consumo excessivo de frituras pode causar problemas sérios, como esteatose hepática, mas ressalta que, quando consumidas ocasionalmente e em quantidades controladas, as frituras podem não só ser inócuas como, em certos contextos, vantajosas.
O relato técnico foi cruzado com literatura básica sobre nutrição: a chave, segundo o especialista, é o enquadramento do alimento na dieta global e a frequência de consumo. “O problema não é nunca o alimento isolado. Pequenas doses, em uma pessoa saudável, mesmo de produtos calóricos, não são danosas se inseridas em uma dieta equilibrada. Importante é não exagerar nas quantidades”, afirma Vestita.
O nutricionista aponta ainda um aspecto prático e com impacto social: a fritura pode ser um aliado em situações específicas, sobretudo para idosos com perda de apetite e risco de desnutrição. “É preciso inventar estratégias para fazê-los se alimentar; uma fritura ajuda a estimular o apetite”, explica. Essa colocação é compatível com medidas assistenciais que priorizam palatabilidade e aceitação em grupos vulneráveis.
Outro ponto que Vestita desmistifica é a suposta periculosidade do strutto (gordura suína), ingrediente tradicional em diversas receitas regionais. “Muitos acreditam que a gordura de porco é prejudicial. Não o é, obviamente se falamos de pequenas doses. O lardo contém cerca de 40% de ácido oleico — o mesmo presente no azeite — e é rico em gorduras insaturadas. Logo, ocasionalmente, uma fritura ou o uso em certas sobremesas não constitui um problema”, diz o nutricionista.
Para controlar a vontade sem abrir mão da tradição, Vestita sugere um expediente simples e baseado em fisiologia digestiva: fibras. Comer vegetais ou uma peça de fruta antes do doce reduz a sensação de fome e facilita o controle da porção. Ele cita até um exemplo cultural popular: no filme “E o Vento Levou” (Gone with the Wind), Rossella é aconselhada a comer maçãs antes de um jantar para não demonstrar demasiada fome — uma tática análoga e eficaz. “Se queremos um docinho ao final da refeição, antes comamos uma maçã verde, menos açucarada, e então um pequeno doce”, conclui Vestita.
Conclusão factual: a abordagem recomendada é de moderação e contexto. A realidade traduzida pelos fatos brutos indica que a manutenção de uma dieta equilibrada, atenção às quantidades e escolhas de preparo (por exemplo, fritar em azeite quando possível) tornam viável, do ponto de vista nutricional, desfrutar dos doces fritos de Carnaval sem comprometer a saúde em pessoas saudáveis.




















