Por Otávio Marchesini — Em uma noite que confirma o caráter cíclico e simbólico do futebol italiano, a Atalanta venceu a Juventus por 3 a 0 e garantiu presença nas semifinais da Coppa Italia. A equipe de Gian Piero Palladino ofereceu uma leitura tática equilibrada entre paciência e brutalidade eficaz, conquistando o resultado dentro da New Balance Arena, palco tanto de afirmações locais quanto de pequenas revoluções de identidade esportiva.
O roteiro do jogo teve dois tempos distintos. No primeiro, a Juventus de Spalletti foi quem mais buscou o gol, criando as ocasiões mais claras. Aos 20 minutos, após uma longa reposição, Conceição ganhou de Ahanor e foi travado por Carnesecchi, que fechou bem o ângulo. O português não se intimidou e, em seguida, acertou a trave com um belo chute em curva. A partida, porém, mudou de direção no minuto 24: após intervenção do VAR, o árbitro Fabbri assinalou pênalti por toque de mão de Bremer em cruzamento de Ederson. Do ponto, Scamacca foi frio e fez 1 a 0.
Apesar do placar, a Juventus manteve o ímpeto e chegou a criar outras oportunidades — cabeceio de Bremer rente à rede e desperdício de McKennie aos 33 minutos atestaram isso. Mas a produtividade ofensiva dos visitantes foi incompatível com as chances criadas; faltou precisão e frieza. No segundo tempo, essa lacuna ficou ainda mais evidente. Em três minutos, McKennie e Kelly desperdiçaram chances claras, e a tentativa de Spalletti de agitar a equipe com a entrada de Boga (saindo ‘David’) acabou por desorganizar os referenciais ofensivos — por momentos a Juve jogou sem um ponta de referência.
À medida que a partida avançou, a Atalanta aproveitou o erro de leitura adversário com o cinismo habitual da sua escola tática. Aos 77 minutos, Sulemana ampliou, aproveitando assistência de Bellanova para empurrar a bola numa baliza sem goleiro. Já no apagar das luzes, o recém-entrado Pasalic fez o terceiro com um chute preciso no ângulo, finalizando uma transição nascida do esforço de Bernasconi e do passe de Krstovic. Resultado final: 3 a 0 e retorno da equipe orobica às semifinais após uma breve ausência.
O significado desse triunfo vai além do placar: mostra uma Atalanta capaz de transformar disciplina coletiva e leitura de jogo em vantagem em competições mata-mata. Para a Juventus, o revés acende alertas sobre escolhas táticas, gestão de peças e efetividade; em um cenário onde pequenas decisões — como a substituição que retirou a referência de ataque — são determinantes, a derrota evidencia fragilidades que exigirão correção rápida.
Escalações e notas (sistema 3-4-2-1):
ATALANTA: Carnesecchi 6.5; Scalvini 6.5 (30′ st Kossounou 6), Djimsiti 7, Ahanor 6.5; Zappacosta 6.5 (25′ st Bellanova 6.5), De Roon 6.5, Ederson 6.5, Bernasconi 6.5; De Ketelaere 6 (38′ st Pasalic 6.5), Raspadori 5.5 (30′ st Krstovic 6.5); Scamacca 7 (25′ st Sulemana 7).
Em banco: Rossi, Sportiello, Hien, Bakker, Musah, Samardzic, Kolasinac, Zalewski.
O caminho agora reserva à Atalanta o confronto com o vencedor de Bologna-Lazio pelas semifinais. Para analisar adiante: como Palladino equilibrará ambição local e gestão de elenco em calendário denso; para a Juventus, a lição é operacional e política: repensar reações de curto prazo sem perder a coerência estrutural.
Em síntese, uma vitória que confirma a capacidade da Atalanta de transformar identidade tática em resultado e que lembra quão velozmente o futebol italiano se reorganiza — onde tradição, escolhas técnicas e narrativas locais se entrelaçam em noites decisivas.






















