Por Marco Severini — Em um movimento que reverbera além dos salões palacianos, a princesa herdeira Mette-Marit da Noruega emitiu um pedido público de desculpas pela sua amizade com o financista norte-americano Jeffrey Epstein. A declaração do Palácio Real, divulgada em sequência à publicação de milhões de páginas de documentos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, expressa o profundo arrependimento da princesa pelo impacto que essas relações tiveram sobre a família real.
“Desejo expressar o meu mais profundo rammarico pela minha amizade com Jeffrey Epstein. É importante para mim pedir desculpas a todos aqueles que desapontei”, afirma a nota oficial citada pelo Palácio. A princesa acrescentou lamento específico pela situação em que pôs o rei e a rainha, reconhecendo o constrangimento institucional provocado pelas revelações.
O pedido de explicações foi solicitado pelo primeiro-ministro Jonas Gahr Støre, após a divulgação de numerosos e-mails trocados entre Mette-Marit e Epstein. Entre as trocas mais comentadas está uma correspondência de 2012, quando Epstein afirmou estar em Paris “à procura de esposa” e a princesa respondeu, com ironia privada, que a cidade era “adapta ao adultério”, mas que “as mulheres escandinavas são esposas melhores”. O Palácio comunicou que a princesa deseja esclarecer detalhadamente os fatos, mas que “não está, neste momento, em condições de fazê-lo”, alegando que a herdeira passa por uma fase particularmente difícil.
As revelações, além de colocar foco internacional sobre um membro da monarquia, desenham um redesenho de fronteiras invisíveis na percepção pública sobre elites e influências transnacionais. A publicação dos documentos do DOJ não altera o fato de que Jeffrey Epstein fora condenado em 2008 e morreu na prisão em 2019, mas amplia o debate sobre escolhas pessoais e a arquitetura ética que sustenta instituições de Estado.
O contexto pessoal da princesa também é sensível: seu filho, Marius Borg Høiby, fruto de uma relação anterior ao casamento com o príncipe herdeiro Haakon, responde a um processo com 38 acusações, incluindo quatro imputações relacionadas a estupro e violência contra ex-parceiras. Em paralelo, Mette-Marit enfrenta problemas de saúde severos — diagnosticada com uma forma rara de fibrose pulmonar que poderá exigir transplante de pulmão — o que, segundo o Palácio, agrava sua capacidade de se expor publicamente neste momento.
Outras personalidades norueguesas também foram chamadas a prestar esclarecimentos sobre laços com Epstein. Entre elas, o ex-primeiro-ministro Thorbjørn Jagland é alvo de investigação policial por suspeita de “corrupção agravada”. É crucial sublinhar que a mera menção de um nome nos documentos não implica, por si só, culpa ou condenação; contudo, a trama evidencia ligações que durante anos foram, em alguns casos, minimizadas.
Do ponto de vista estratégico, este episódio opera como um movimento decisivo no tabuleiro institucional: testa a resiliência dos alicerces da diplomacia monárquica e força a Casa Real a recalibrar suas relações externas. A tectônica de poder local e internacional, aqui, não muda de imediato, mas ganha novas linhas de tensão, exigindo transparência e gestão prudente para preservar a estabilidade da coroa e da confiança pública.
Em suma, a retratação de Mette-Marit é um gesto de contenção em um momento de pressão pública e política. Resta à monarquia norueguesa transformar a crise numa lição institucional, reforçando controles e clareza sobre vínculos que atravessam fronteiras e códigos de conduta.






















