Dominik Paris, nascido em Merano em 14 de abril de 1989, encerra uma busca que parecia pendente em seu currículo ao conquistar a medalha de bronze na prova de descida masculina nos Jogos Olímpicos de Milão‑Cortina 2026. Aos 36 anos, o veterano azzurro soma a primeira medalha olímpica da carreira, completando um palmarés já repleto de títulos e resultados que fizeram dele uma referência do esqui alpino italiano.
Uma carreira reciclada em tradição
A trajetória de Dominik Paris é, antes de tudo, um retrato das raízes montanhesas italianas: filho de um mestre de esqui, calçou os primeiros esquis sob o olhar do pai e disputou sua primeira prova aos seis anos. A sequência de vitórias no Trofeo Topolino e as primeiras corridas FIS apontaram cedo para um talento que, contudo, passou por uma pausa vital — o trabalho como pastor em uma malga suíça durante o verão — que Paris descreveu como regenerador. Esse intervalo, mais do que um afastamento, foi uma construção de caráter que depois se traduziu em resultados consistentes na pista.
Resultados que não se improvisam
Antes do bronze olímpico, Paris já havia alumbrado palcos maiores: prata no Mundial de 2013 em descida e o ouro mundial no Super‑G de 2019. Na Copa do Mundo, são 24 vitórias — marca que o coloca como o segundo italiano mais vencedor ao lado de Gustavo Thoeni, atrás apenas de Alberto Tomba. Especialmente simbólicas são suas conquistas em pistas de mito: quatro triunfos na Streif de Kitzbühel (três em descida, um em super‑G) e sete na icônica Stelvio, em Bormio (seis em descida e um em super‑G). Essas marcas não são apenas números; são a prova de uma carreira que se construiu em locais que forjaram a memória coletiva do esporte.
O pódio em Milão‑Cortina e seu contexto
A prova de descida em que Paris subiu ao pódio foi vencida pelo suíço Franjo Von Allmen, com o jovem italiano Giovanni Franzoni levando a prata. O bronze de Paris, porém, tem peso simbólico maior: representa a coroação olímpica de um atleta cuja carreira dialoga com a história do esqui europeu — e com a persistência de um modelo de formação que ainda passa por pequenas estórias familiares e por escolhas de vida longe dos holofotes.
Fora das pistas: identidade e imagens
Fora das competições, Dominik Paris conserva uma imagem de ‘‘ragazzone di montagna’’ — homem de família, cozinheiro das tradições locais e aficionado por música pesada. Retornar a Bormio para disputar e fechar o ciclo da carreira olímpica foi, nesse sentido, um gesto simbólico: a pista da Stelvio não é apenas terreno técnico; é palco de memória, de reconhecimento social e de um certo orgulho regional que se projeta para toda a Itália do esporte.
Para leitores que buscam mais do que um resultado, a medalha de Paris em Milão‑Cortina 2026 confirma uma leitura que sempre defendi: atletas representam muito mais do que suas marcas temporais. São peças de uma narrativa coletiva que liga cidade, identidade e memória — e, no caso de Paris, a história de um homem que transformou raízes em resistência competitiva.
Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia






















