Sofia Goggia, em Cortina d’Ampezzo, reagiu com a precisão sóbria que a caracteriza após as sessões de treinos da descida livre que colocaram a americana Lindsey Vonn provisoriamente em terceiro lugar. A cena ocorre na véspera da prova válida por Milano Cortina 2026, em pista marcada por nevadas recentes e condicionantes que alteraram o perfil seletivo tradicional da montanha.
Ao ser questionada se o desempenho de Vonn, depois do grave episódio de lesão do cruzado, poderia ser classificado como “da fantascienza”, Goggia preferiu uma resposta medida: “Ai posteri l’ardua sentenza”. A frase em italiano funciona aqui como um aviso à posteridade: há julgamentos que só o tempo e o campo de prova confirmarão.
Mais direta, a campeã bergamasca destacou que conhece bem a realidade de uma recuperação no esqui de alta velocidade: “Eu me lembro como eu estava e não o tinha rompido completamente”, disse Sofia Goggia, referindo-se à sua própria experiência com lesões e à complexidade de retornar ao topo. Ainda assim, reconheceu: “Vi a americana bem” — uma observação que, embora concisa, contém a admissão de que o nível técnico de Lindsey Vonn continua relevante.
Contudo, Goggia recusou reduzir a corrida a um confronto direto entre duas estrelas. Em sua leitura, a prova de amanhã não será um duelo de dois nomes. “Acredito que há muitas corredoras que, especialmente nessas condições, podem alcançar o pódio e até a vitória”, afirmou. A declaração devolve à competição a dimensão coletiva: pistas menos seletivas igualam oportunidades e colocam em evidência a profundidade do pelotão feminino.
A avaliação técnica de Goggia também foi marcada pela compreensão das variáveis climáticas: as intensas nevadas dos dias anteriores tornaram a preparação da pista um expediente quase heroico. “É quase um milagre que tenham conseguido tirar essa pista com as fortes nevascas”, comentou. Esse fato explica, para ela, a ausência do traçado extremamente duro e seletivo que corredores e aficcionados associam à Copa do Mundo — um elemento que, quando presente, costuma separar definitivamente favoritos de meros candidatos.
Como repórter e analista, vejo na intervenção de Sofia Goggia um duplo sentido: por um lado, a prudência de quem sabe que lesões e recuperação mudam parâmetros; por outro, o reconhecimento de que as condições externas (clima e preparação do traçado) redefinem hierarquias momentâneas. Em Cortina, amanhã, não apostaria tudo em um único nome — e essa é, talvez, a maior virtude do esporte: sua capacidade de surpreender quando as circunstâncias se rearranjam.
Fotografia: ANSA/EPA





















