Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um almoço que funcionou como síntese simbólica entre gastronomia e identidade nacional, o presidente da República, Mattarella, foi servido ontem em Casa Italia, na Triennale de Milão, pelo chef estrelado Davide Oldani. O encontro, restrito a 24 convidados ilustres, marcou o primeiro almoço oficial do espaço durante os Jogos Milano-Cortina e antecipou a abertura do local também ao público.
Oldani, Food&Sport Ambassador de Casa Italia desde os Jogos do Rio 2016, repetiu a honra de cozinhar para o chefe de Estado pela quarta vez. “Cozinhar para ele é um privilégio — é uma pessoa muito atenta”, disse o chef. O prato que inaugurou o serviço, Zafferano e riso, tem raízes no seu repertório desde a Expo e funciona, segundo Oldani, como um tributo às matérias-primas italianas: o açafrão, tratado com respeito — em infusão, sem excessos — e ligado ao patrimônio culinário que vai da Lombardia à Sicília.
A refeição, preparada na cozinha a vista montada na Triennale, foi pensada para ser simultaneamente tradicional e contemporânea. No menu figuraram o Rustin negàa de vitelo com salsa all’italiana, o panettone ao colher — versão Milano-Cortina com folha crocante de amêndoa e compota de mirtilo — e pães artesanais como o Pan Tramvai e um pão feito com grão Tumminia. Havia também referências territoriais diretas: os Pizzoccheri da Valtellina em versão aligeirada e o clássico fegato alla veneziana, entre outros itens pensados para conciliar sabor e leveza.
Entre os convidados estavam figuras do esporte e da organização dos Jogos: Laura Mattarella, o ministro do Esporte Andrea Abodi, o presidente da Fondazione Milano-Cortina Gianni Malagò, o presidente Coni Luciano Buonfiglio e antigos campeões como Alberto Tomba, Deborah Compagnoni e Manuela Di Centa. A escolha dos convidados e do menu reforçou a intenção de usar a mesa como palco de representação nacional — onde o alimento conta territórios, histórias e competências locais.
Oldani, que já havia servido o presidente durante uma recepção ligada ao presidente federal alemão Steinmeier em Milão e também em Paris 2024, descreve a experiência como sempre emocionante. Para ele, o cardápio proposto em Casa Italia foi o resultado de um trabalho de um ano e meio, com a intenção clara de unir produto, manualidade e bem-estar. “Queremos que as pessoas comam bem e de forma equilibrada”, afirmou o chef, ressaltando a pesquisa sobre ingredientes regionais — Lombardia, Veneto e Trentino-Alto Adige — sem, porém, encerrar a seleção nas fronteiras dessas regiões.
Como observador das interseções entre esporte e cultura, é inevitável perceber que uma refeição oficial como esta transcende a dimensão gustativa. É ato de Estado e de construção de narrativa: uma mesa que oferece não apenas sabores, mas memórias e legitimidade institucional. Em tempos nos quais competir internacionalmente ocupa o espaço público, colocar o alimento e o território no centro da cena é também reafirmar a ideia de que a Itália — em sua diversidade regional — é, ainda, uma fábrica de símbolos reconhecíveis.
Com a abertura de Casa Italia ao público, a proposta é que o mesmo discurso de tradição e inovação chegue a um público mais amplo, transformando receitas e produtos em pequenos embaixadores de um projeto maior: apresentar o país enquanto conjunto de excelência, técnica e narrativa.






















