Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite que foi menos sobre esportes e mais sobre as narrativas que o esporte carrega, o San Siro transformou-se em palco de uma diplomacia performática. A cerimônia de abertura em Milão foi um espetáculo pensado para impressionar — e, ao mesmo tempo, um termômetro das tensões internacionais que pairam sobre estas Olimpíadas.
Do início, a lógica do espetáculo italiano foi clara: da canção de Raffaella Carrà ao repertório popular, passando por intervenções artísticas e símbolos nacionais, a encenação buscou reconciliar glamour e memória. No telão, o secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um apelo direto para que todas as partes em conflito respeitem a tregua olímpica, lembrando que a paz deve prevalecer mesmo em anos de alta tensão geopolítica.
Houve momentos de ternura performática — o grupo pop inspirado em Verdi, Puccini e Rossini; a evocação do amor e da estética clássica — e outros de confronto simbólico. A delegação de Kiev recebeu uma ovação, enquanto a bandeira de Israel sofreu vaias da arquibancada. A reação pública traduziu, em poucos segundos, o entrelaçamento entre solidaridade, memória e política externa que atravessa a Europa contemporânea. Nas redes e na arena, lideranças políticas reagiram: Matteo Salvini comentou que quem vaiou “não entendeu nada”, um contraponto às manifestações de repúdio.
No protocolo, chamaram atenção presenças e ausências. Estavam ali 47 chefes de Estado e de governo, incluindo três soberanos e uma amostra dos atores regionais que hoje disputam influência. O emir do Catar compareceu sem trazer atletas, lembrando que o evento também é um palco de interesses econômicos e diplomáticos. Notável foi a ausência de Emmanuel Macron, um gesto que, real ou simbólico, reverbera quando a França será anfitriã da próxima edição olímpica.
Entre as figuras italianas, a presença de Giorgia Meloni ao lado de autoridades como o ministro Ignazio La Russa e o prefeito Beppe Sala consolidou o caráter oficial da noite. Nas tribunas, a presença de personalidades americanas também atraiu olhares: a entrada da delegação dos Estados Unidos provocou a reação mais calorosa, com a plateia se levantando ao som das bandeiras stars and stripes.
A cerimônia não dispensou referências históricas. Giovanni Malagò, presidente do comitê organizador, falou em “escrever uma página de história”. Não é menor a comparação com a austeridade das inaugurações do passado, como a de Cortina em 1956, quando a sobriedade — um drapeado com os cinco anéis e um coro alpino — era a norma. Hoje, as Olimpíadas são um evento midiático, diplomático e de imagem que reflete multiplicidade de atores e narrativas.
Houve também pequenos contrapontos culturais: a presença dos atletas mongóis, com trajes que remetiam ao legado de Gêngis Khan, trouxe à memória a tensão entre exotização e representação legítima de identidades. No final, a chama acesa no Arco della Pace selou a dimensão cerimonial de uma noite que foi, antes de tudo, um grande encontro entre estados, símbolos e expectativas.
Se a festa de abertura no San Siro foi um ensaio para o que vem por aí, a lição principal é que o esporte contemporâneo é, invariavelmente, teatro político. As vaias, as palmas e as ausências dizem tanto sobre a geopolítica quanto os discursos oficiais. E, no rescaldo, resta perguntar: que paz conseguem promover os jogos quando as forças que os cercam reproduzem velhas e novas fraturas?






















