Por Otávio Marchesini — Em uma noite que combinou cerimônia e diplomacia cultural, a tribuna de honra do San Siro trouxe ao centro do palco não apenas líderes políticos, mas um quadro significativo de monarquias europeias. Ao lado do presidente Sergio Mattarella e da primeira‑ministra Giorgia Meloni, a mais numerosa delegação real foi a da família real da Holanda: o Rei Guilherme Alexandre, a Rainha Máxima e a princesa herdeira Catharina‑Amalia.
A presença dos monarcas no estádio de Milão teve contornos tanto protocolares quanto simbólicos. Ao todo, quase cinquenta chefes de Estado e membros de casas reais foram recebidos no Palácio Real — um gesto de acolhimento institucional que, na prática, é também uma forma de soft power: a Itália projetando produção cultural, hospitalidade e continuidade histórica através de um evento glob al como os Jogos Olímpicos.
Entre as imagens mais comentadas esteve a reação calorosa da Princess Royal Anne e de Sir Timothy Laurence ao desfile do Team GB. Ao contrário da compostura protocolar que normalmente marca cerimônias desse porte, eles se levantaram e acenaram com a bandeira e a scarf oficial da equipe britânica, num gesto direto de apoio. Importante ressaltar que Anne competiu nos Jogos de Montreal em 1976 na modalidade de hipismo, o que traz uma dimensão pessoal ao seu entusiasmo.
O Príncipe Alberto II de Mônaco também teve seu momento, visivelmente entusiasmado quando a bandeira monegasca passou pela avenida de desfiles. Conhecido por sua ligação com o esporte — participou de várias edições dos Jogos de Inverno na modalidade bobsleigh —, Alberto representa uma tradição de atuação esportiva que faz a ligação entre prestígio institucional e ativismo pela paz através do esporte, também evidente em seu engajamento com o Comitê Olímpico Internacional e iniciativas como o Peace & Sport.
O encontro diplomático que precedeu a cerimônia teve tom mediterrâneo: paccheri ao molho de tomate e manjericão, seguido pelo clássico tiramisù, servido na Fabbrica del Vapore — detalhes que reforçam a narrativa italiana de hospitalidade e de patrimônio culinário como componente da experiência diplomática. Após a recepção oficial, houve ainda jantares e encontros bilaterais, incluindo momentos em que o presidente Mattarella e outros anfitriões conversaram com ministros e representantes, consolidando laços antes do início efetivo das competições.
Nos próximos dias a presença das monarquias vai se manter: estão confirmadas participações prolongadas da família real sueca — o rei Carl XVI Gustaf e a rainha Silvia —, que acompanharão as provas por vários dias, antes de dar lugar à princesa herdeira Victoria, que se concentrará no suporte aos atletas paralímpicos. Chegarão também representantes da Noruega — o rei Harald V, a rainha Sonja e o príncipe herdeiro Haakon —, reforçando a visibilidade escandinava num evento que, além do espetáculo esportivo, funciona como palco de projeção internacional.
Mais do que rostos ilustres nas arquibancadas, a reunião de tantas casas reais em Milão traça um retrato do esporte como arena de significados: unidade simbólica, diplomacia cultural e reafirmação de laços transnacionais. Em tempos em que a política externa se expressa tanto em acordos quanto em aparições públicas, a cerimônia de abertura confirmou que estádios e protocolos continuam a ser instrumentos relevantes na tapeçaria das relações internacionais.






















