Por Otávio Marchesini — Em uma jornada que reconfigura a memória do esqui italiano, a pista da Stelvio, em Bormio, apresentou ao público de Milano Cortina uma sequência de imagens que vão muito além do cronômetro. No que poderia ter sido o capítulo seguinte da epopeia de Zeno Colò, datada de Oslo 1952, a Itália celebra um duplo pódio: Giovanni Franzoni conquistou a prata e Dominik Paris, aos 37 anos, subiu ao terceiro degrau.
O ouro ficou com o suíço Franjo Von Allmen, campeão mundial no ano anterior, que confirmou no alto da Stelvio a condição de discesista mais veloz do circuito. Mesmo assim, o resultado dos azzurri tem contornos históricos: Franzoni, a promessa que já é presença forte, aproximou-se muito do topo — deixou na Carcentina alguns centésimos decisivos e terminou a apenas 0,20s do vencedor —; Paris, o capitão que atravessa a transição entre gerações, adicionou à carreira a medalha olímpica que havia lhe escapado até então.
O episódio ganha densidade se colocado no contexto maior. A pista fria e exposta de Bormio sempre teve o caráter de altar para quem entende a velocidade como ofício e risco. Aqui, os azzurri não só desafiaram favoritos como Marco Odermatt — o «Cannibale» dos últimos anos — como também deixaram para trás outros postulantes ao pódio. Entre os nomes de respeito ficaram posicionados Alexis Monney e o próprio Odermatt, enquanto Vincent Kriechmayr, que chegou ao título mundial em 2021 nas duas disciplinas de alta velocidade, fechou em sexto. Daniel Hemetsberger, que correu sob limitações físicas e visuais, terminou em sétimo, e o francês Nils Allègre foi um outsider perigoso.
Há uma camada humana nesta vitória coletiva italiana. Von Allmen, que possui um técnico de equipamentos originário da Val d’Ultimo — a mesma região que deu raízes ao percurso esportivo de Paris — simboliza como as redes de afeto e treinamento cruzam fronteiras. E, embora o ouro tenha escapado ao tricolor, a taça em bronze e prata recolocam o país num mapa que, nas últimas décadas, vinha sendo dominado por outras nações da alta velocidade.
Historicamente, a descida olímpica italiana contava com poucas glórias: referências recentes citam o bronze de Herbert Plank em 1976 e a prata de Christof Innerhofer em 2014. A adição de duas medalhas num único dia amplia esse arquivo e tem impacto não apenas estatístico, mas simbólico: reafirma que a Itália, entre tradição e renovação, segue produzindo atletas capazes de dialogar com o ápice do esporte.
Do ponto de vista técnico, a leitura da pista mostrou-se inexorável: Von Allmen foi impecável, mas a margem ficou curta o suficiente para que a performance de Franzoni seja lida como prenúncio. Paris, por sua vez, confirmou o papel do veterano inteligente — aquele que administra erros, conserva ritmo e transforma experiência em resultado.
Em Bormio, portanto, não se consumou um ouro esperado há 74 anos, mas consolidou-se algo talvez mais duradouro: um reencontro da Itália com sua narrativa de velocidade, entre herança e renovação. Os Jogos de 2026 brilham agora com dois pódios azzurri que merecem ser lidos tanto como conquista esportiva quanto como gesto cultural — a lembrança de que pistas e cidades, como Bormio, continuam sendo palcos onde se negocia identidade, memória e futuro.






















