Veneza volta a mirar um dos grandes nomes do século XX: inaugurada na sexta-feira, 6 de fevereiro, a exposição “Man Ray, l’immagine ritrovata” reabre ao público o arquivo e o olhar de Man Ray no coração da Biennale. Instalado no Portego de Ca’ Giustinian, sede histórica da instituição, o projeto restituí integralmente o corpus exibido em 1976 na ilha de San Giorgio Maggiore — uma mostra-curinga então curada por Janus, no âmbito da seção “Ambiente, Partecipazione, Strutture Culturali” dirigida por Vittorio Gregotti.
São expostas 160 obras fotográficas doadas pelo artista ao Archivio Storico, acompanhadas por documentos, fotografias e materiais de trabalho que reconstituem o contexto daquela Biennale seminal. A inauguração contou com as falas do presidente Pietrangelo Buttafuoco e de Debora Rossi, responsável pelo Archivio Storico, que conduziram o público pela história e pelo valor cultural do material.
Mais do que uma retrospetiva, a mostra funciona como um espelho do nosso tempo: o conjunto atravessa a carreira de Man Ray entre 1917 e 1973, reunindo desde impressões a partir de negativos e chapas até fotografias únicas e reproduções de catálogos. São peças selecionadas pela sua carga documental e, sobretudo, pelo seu peso conceitual — provas de que a fotografia não é mero registro, mas um dispositivo estético e de pensamento.
Na inauguração, Buttafuoco lembrou que a Biennale é um organismo vivo, “no coração pulsante” de uma prática que vai além de mostras e festivais. Segundo ele, o próximo passo é anunciar um espaço na cidade que represente essa dimensão cotidiana do trabalho do arquivo. E reforçou a centralidade da fotografia na construção da memória cultural: “A fotografia se lê — e, como um artigo de jornal que também se vê, nela o olhar do artista vai direto ao ponto”, afirmou, evocando a relação íntima entre técnica e pensamento estético.
Debora Rossi contextualizou o percurso expositivo: as 160 obras constituem um acervo que cobre as fases essenciais da trajetória de Man Ray, recriando sonhos, invenções e estratégias visuais montadas com a curadoria de Janus e acompanhadas pelo próprio artista, então enfermo em Paris. Mesmo debilitado, Man Ray acompanhou a montagem e, generosamente, doou o projeto à Biennale, transformando-o num dos fundos mais consultados do Archivio Storico.
Ver hoje essas imagens em Ca’ Giustinian é reencontrar um roteiro oculto da modernidade: cada impressão e cada negativo operam como uma cena de cinema, um fragmento que, ao ser remontado, revela o eco cultural e a semiótica de um tempo que produziu o Dadaísmo e o Surrealismo. A exposição propõe, portanto, um reframe da história — uma oportunidade para olhar não só para o artista, mas para as estruturas institucionais e afetivas que tornaram possível aquela Biennale de 1976.
Entre os objetos expostos estão materiais de trabalho, documentos e fotografias que funcionam como notas de produção, memórias de bastidores e provas do gesto criativo. Para o público contemporâneo, habituado à saturação de imagens, a mostra oferece um convite: desacelerar, ler a fotografia como se ela fosse um roteiro e perceber o quanto uma imagem pode conservar, militar e transformar a memória coletiva.
Essa reexposição, além de restaurar visibilidade a um capítulo decisivo da história da Biennale, reafirma o papel do Archivio Storico como opificio — um lugar de trabalho contínuo onde o passado é reatualizado e devolvido ao presente com nova potência interpretativa.






















