Por Chiara Lombardi — Naquele diálogo silencioso entre pintura e memória, a cidade de Roma reaparece sob a caligrafia sensorial do artista norte-americano Cy Twombly. Nesta semana, a Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea (GNAMC) foi palco da apresentação de um cofanetto de três livros, publicado pela Electa com o apoio de MAIRE, que recupera e ilumina o período romano do pintor, figura central do expressionismo abstrato.
O lançamento não é apenas um catálogo: é um mapa editorial que reconstrói o itinerário afetivo e estético de Twombly em Roma, entre os anos cinquenta e sessenta — uma fase em que a capital italiana funcionou como um verdadeiro motor cultural, um cenário de transformação onde convergiam sobrevivência poética e experimentação visual. Esses três volumes atuam como camadas narrativas, oferecendo textos críticos, imagens de arquivo e documentos que traduzem a intensidade desse encontro entre um artista americano e uma cidade europeia ancestral.
Ver este cofre editorial apresentado na GNAMC é como assistir a um filme retroativo em que cada página funciona como cena-chave: há a materialidade da tinta, a leveza da escrita quase grafada de Twombly e o eco das ruínas que o cercavam. A obra do pintor, embora nascida da tradição do expressionismo abstrato, revela-se também profundamente romana — não apenas por paisagens, mas pela relação com o tempo histórico e as camadas da memória coletiva.
O apoio da MAIRE e a curadoria editorial da Electa permitem uma leitura plural: não se trata de canonizar, mas de contextualizar. Os livros procuram responder a perguntas que atravessam a historiografia da arte contemporânea: como uma capital europeia reconfigura a prática de um artista estrangeiro? Em que medida a experiência romana de Twombly foi um catalisador para as transformações estéticas que marcaram o pós-guerra?
Como observadora cultural, vejo nesse lançamento um pequeno espelho do nosso tempo — a capacidade do patrimônio e da pesquisa editorial de oferecer reframes que nos ajudam a compreender não só o passado, mas os mecanismos que fazem surgir novas narrativas estéticas. O cofanetto é tanto um objeto de estudo quanto um convite: folhear suas páginas é passear por um roteiro oculto da cidade, onde grafismos e gestos pictóricos reinventam a paisagem urbana.
Para o público da GNAMC e para leitores além dos muros do museu, o lançamento reafirma a relevância de revisitar momentos formativos. É uma lembrança de que a história da arte não é estática; é um arquivo vivo em constante reescrita. Este conjunto de livros sobre Cy Twombly em Roma não apenas documenta uma trajetória — ele a reencena, tornando audível o sussurro daquela época e convidando-nos a ouvir com olhos renovados.






















