Por Marco Severini – Em um movimento que altera o ritmo do tabuleiro europeu, o Parlamento Europeu deve votar já na semana que vem o empréstimo de 90 bilhões à Ucrânia destinado a dois anos de apoio. Originalmente previsto para uma sessão extraordinária a 24 de fevereiro, o pleito foi antecipado para 11 de fevereiro, durante a sessão plenária em Estrasburgo, segundo anúncio oficial da porta-voz Delphine Colard.
Esse adiantamento decorre da urgência política e operacional: após o acordo entre Estados‑membros sobre os limites geográficos e a vinculação das despesas militares a que o empréstimo estará sujeito, não há tempo a perder. Como salientaram os liberais do Renew Europe, é “essencial uma rápida adoção para que a Comissão possa iniciar a liberação de fundos: a Ucrânia não pode esperar”.
Na manhã de quarta‑feira, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, enfrentará o hemiciclo em um debate sobre o “Relatório Draghi: competitividade europeia e custo de vida”. O confronto promete ser tenso: de um lado, críticos que apontam para a morosidade na implementação das reformas; do outro, vozes que rejeitam as propostas de aceleração da integração delineadas por Mario Draghi. O grupo dos Patrioti (PfE) já qualificou Draghi como parte do problema e não da solução, ecoando a polarização que atravessa o debate público.
Mas será no dossiê da migração e do asilo que o Parlamento exporá os nós mais intrincados da tectônica de poder europeu. A pauta inclui os votos finais sobre duas propostas controversas da Comissão: o primeiro lista de Países de Origem Seguros da UE e a revisão das regras que definem quando um País Terceiro pode ser considerado seguro. A lista inicial deve reunir Bangladesh, Colômbia, Egito, Índia, Kosovo, Marrocos e Tunísia, abrindo a via para um procedimento acelerado das solicitações de proteção internacional desses nacionais.
A alteração das normas sobre países terceiros seguros é ainda mais incisiva: pretende permitir que Estados‑membros deem por inadmíssiveis pedidos de asilo quando o requerente tiver ligação com, tenha transitado por, ou possa ser transferido a um país não‑UE considerado seguro, com base em acordos bilaterais ou multilaterais. Trata‑se de um redesenho de fronteiras invisíveis no regime de proteção, com implicações jurídicas e humanitárias relevantes.
Há, portanto, um duplo movimento: por um lado, a mobilização de recursos financeiros substanciais a favor de um Estado em guerra; por outro, um aperto das alavancas regulatórias sobre quem tem acesso às portas da União. Ambos os temas – financiamento e soberania das fronteiras – são jogadas estratégicas num tabuleiro onde a estabilidade e a legitimidade se equilibram sobre alicerces frágeis.
Na semana que vem, a agenda de Estrasburgo também inclui um encontro informal de chefes de Estado e de Governo convocado por Antonio Costa, com a participação de Mario Draghi e Enrico Letta, que acrescenta uma camada executiva ao debate parlamentar. A conjuntura exige decisões rápidas, mas calibradas: cada movimento terá repercussões na coesão interna da UE e na sua projeção externa.
Como analista que observa a arquitetura do poder, não me iludo: trata‑se de um momento decisivo, onde pragmatismo e princípios colidirão na busca de soluções. O resultado do voto sobre os 90 bilhões à Ucrânia e as mudanças nas regras de asilo dirão muito sobre a capacidade da União Europeia de conduzir políticas coerentes em tempo de crise — e de manter, ao mesmo tempo, a integridade dos seus valores fundamentais.





















