Bruxelas — Em um movimento que redesenha, ainda que discretamente, o tabuleiro das relações externas da União Europeia, Stefano Palmieri foi nomeado presidente da Seção de Relações Externas (REX) do Comitê Económico e Social Europeu (CESE). A seção, responsável pelo diálogo entre as organizações da sociedade civil europeia e suas contrapartes nos países com os quais a União Europeia mantém relações formais, passa assim a ser dirigida por uma figura cuja leitura dos cenários internacionais privilegia a avaliação estratégica dos riscos.
A nomeação ocorre em um momento de crescente descompasso nas relações transatlânticas, em particular no campo da cooperação comercial entre a UE e os Estados Unidos. Palmieri, em declarações públicas, sublinha que a chamada “segunda administração Trump” interrompeu esquemas estabelecidos de forma abrupta, inaugurando uma configuração onde atores e doutrinas emergentes atuam como verdadeiros game changer no teatro geopolítico.
Segundo o novo presidente da REX, a virada não se esgota na figura do presidente estadunidense, mas envolve um conjunto de atores orbitando a nova liderança — citando, entre outros, o vice-presidente J.D. Vance. Na sua leitura, uma coalizão inédita de tecnocratas e bases populares tem sido instrumentalizada para conformar uma estratégia geopolítica norte-americana de caráter assertivo e, por vezes, predatório.
Palmieri recordou momentos-chave que, em sua opinião, marcaram a escalada: o discurso em Munique do citado vice-presidente estadunidense, que questionou a própria vitalidade democrática europeia; a imposição de direitos aduaneiros sem uma reação europeia contundente; a nova National Security Strategy norte-americana apresentada em novembro; e movimentos externos — como a crise na Venezuela e as tensões em torno da Groenlândia — que evocam capítulos históricos de projeção de poder, incluindo reflexos da Doutrina Monroe.
Para o presidente da REX, o principal impacto desta instabilidade geopolítica é político. A Europa, com seu atual arcabouço institucional, corre o risco de perder relevância e de ver seus instrumentos de governança internacionais insuficientes para fazer face às pressões externas. Diante deste impasse, Palmieri aponta duas rotas: uma revisão profunda dos Tratados Europeus — um caminho cuja viabilidade ele considera remota, dadas as atuais maiorias nas instituições — ou a promoção de uma cooperação reforçada entre Estados-membros mais empenhados, uma espécie de «coalizão de voluntários» rumo a maior coesão.
Esta nova direção na presidência da Seção REX exige, nas palavras de Palmieri, uma leitura capaz de articular diplomacia e sociedade civil, fortalecendo os alicerces da influência europeia sem descuidar do tecido social. Ao assumir, ele sinaliza que a maturidade estratégica da UE será testada: será preciso transformar preocupações geopolíticas em políticas concretas, sob pena de que a tectônica de poder atual redesenhe fronteiras de influência invisíveis à custa de custos políticos e sociais.
Como analista que observa o jogo de peças entre grandes potências, concluo que a nomeação de Palmieri é um movimento de posição no tabuleiro: sinaliza uma intenção de reequilibrar forças por meio do engajamento da sociedade civil e do reforço das dinâmicas intra-europeias. Resta agora ver se a Europa terá a capacidade de converter essa intenção em ações estruturantes, que preservem sua autonomia estratégica e reduzam os custos políticos e sociais decorrentes desta instabilidade.






















