ROMA — Uma revisão abrangente publicada em Lancet e conduzida por pesquisadores da Universidade de Oxford traz um alento para quem convive com o medo dos remédios contra o colesterol: as estatinas não parecem ser responsáveis pela maioria dos efeitos adversos frequentemente listados em bulas e atribuídos a esses fármacos.
Em termos simples, os autores reuniram dados de grandes estudos clínicos da Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration (CTT). Foram avaliados 123.940 participantes em 19 ensaios que confrontaram terapia com estatinas versus placebo, além de outros 30.724 participantes em quatro estudos que compararam uma terapia com estatinas mais intensiva contra uma menos intensiva.
Os resultados mostram uma constância que acalma: o número de relatos de efeitos adversos foi muito semelhante entre pacientes que receberam estatinas e aqueles que tomaram placebo. Em outras palavras, muitos dos males atribuídos a esses medicamentos — da sensação de mal-estar ao relato de sintomas variados — podem não ser diretamente causados pelo fármaco.
Não é pouca coisa. As doenças cardiovasculares respondem por cerca de 20 milhões de mortes no mundo, e as estatinas são uma ferramenta comprovada para reduzir o colesterol LDL (o chamado “mau” colesterol) e, com isso, diminuir o risco cardiovascular. A revisão reforça a mensagem de que os benefícios já conhecidos das terapias com estatinas permanecem sólidos.
Como um jardineiro que observa a superfície das folhas antes de mexer nas raízes, os pesquisadores lembram que a relação entre medicamento e sintoma exige cuidado: relatos de sintomas em estudos clínicos podem surgir por várias razões, inclusive expectativas do paciente, comorbidades ou interações externas. A comparação com placebo é justamente a ferramenta que nos ajuda a separar o som verdadeiro da banda sonora do corpo.
Para o cotidiano de quem toma remédio, a mensagem é prática e acolhedora: não interrompa uma terapia indicada sem conversar com seu médico. O balanço entre riscos e benefícios é pessoal e deve considerar o histórico de cada indivíduo, como as raízes de uma árvore que se adaptam ao solo onde crescem.
Ao mesmo tempo, os autores reforçam a necessidade de vigilância contínua. Monitoramento clínico, diálogo aberto entre paciente e profissional de saúde e atenção aos sinais do corpo continuam essenciais. Assim como as estações guiam a colheita, a observação cuidadosa garante que a terapia cumpra seu propósito sem surpresas indesejadas.
Em suma: a revisão de Oxford e publicada em Lancet convida à calma informada. As estatinas mantêm seu papel protetor contra doenças cardiovasculares, e muitos dos efeitos que lhes são atribuídos podem não ter base sólida quando comparados ao placebo. Ainda assim, o caminho mais sensato é o da conversa com seu médico, combinada com um estilo de vida que diminua o risco cardiovascular — a verdadeira colheita do bem-estar.
Alessandro Vittorio Romano — Espresso Italia






















