Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece um refrão invertido do próprio espetáculo, Enrico Nigiotti retorna ao palco de Sanremo 2026 com uma aposta arriscada: levar ao festival uma música que deliberadamente quebra a convenção do pop nacional — uma canção sem refrão. O tema, intitulado “Ogni volta che non so volare“, nasce como um filme interior, uma narrativa que atravessa o tempo e descreve o tropeço e a retomada.
“Melhor uma canção sem refrão do que uma com refrão feio, não?”, brinca o cantor e compositor de 38 anos. A frase, leve na entonação, revela uma decisão estética que tem algo de recusa moral: escolher o que parece verdadeiro, ainda que fora do molde. Essa escolha, ele diz, torna a música mais íntima — um convite para escutar como se assistisse a um close prolongado de um personagem em transformação.
Coassinada por Pacifico, a faixa é descrita por Nigiotti como um “viagem diferente, mais íntima”. No centro da letra há a imagem do cair e do levantar — metáforas do aprendizado, do contato com as forças e com as pessoas que moldam a vida. E há também um receio que atravessa tudo: “Não me assusta envelhecer, me assusta a morte dos outros”, confessa o artista. A frase funciona como espelho do nosso tempo: a passagem do tempo é contínua, mas é a perda alheia que redesenha nosso mapa afetivo.
Já conhecida do público por escolhas coerentes com sua biografia, Enrico Nigiotti lembra que em 2009 deixou o programa “Amici” para não competir contra a então namorada — um gesto que, mais do que um episódio de fama, conta sobre sua ideia de integridade: “Mais do que artista, me sinto humano. Não consigo agir diferente do que sinto.”
Para a serata cover de Sanremo, Nigiotti fará dupla com Alfa para interpretar “En e Xanax”, canção de Samuele Bersani. A escolha é pedagógica: unir gerações e apresentar um autor maior a um público mais jovem é, segundo ele, “uma forma de fazer cultura”.
O retorno de Nigiotti ao estúdio é marcado pelo álbum “Maledetti innamorati”, cuja saída está prevista para 13 de março. O disco celebra o amor — pela vida e pelo outro — e abre-se a uma escrita mais tranquila e atenta. Ele atribui essa mudança à paternidade: os dois filhos, meninos que completarão três anos no dia do lançamento do álbum, trouxeram calma e disciplina. “Se antes eu contava até quatro, agora vou até sete ou oito antes de explodir. Sou mais sereno e escrevo melhor”, afirma.
Nos palcos, Nigiotti se prepara para retomar a estrada: acabou de encerrar uma turnê em teatros e anunciou o primeiro palazzetto em sua Livorno — um marco de carreira. Apesar de duvidar que toque em Sanremo, garante que no tour não abrirá mão da guitarra: a fixação por Eric Clapton foi um legado do pai e permanece viva nas suas escolhas sonoras.
Ao trazer para o festival uma música sem refrão, Enrico Nigiotti não apenas desafia uma regra formal; propõe um reframe da experiência coletiva do hit. É como se, num cenário de transformação, optasse por um plano-sequência em vez do corte habitual — e nos lembrasse que, no fim, o que fica são as pequenas quedas e as sucessivas reações que nos constroem.





















