Por Chiara Lombardi — Em Bergamo, a sociolinguista Vera Gheno abriu o curso «Storia delle donne 1945 – 2026. Prospettive generative», promovido por Fondazione Dalmine, Fondazione Serughetti La Porta, Museo delle storie di Bergamo, Associazione Amici del Museo storico di Bergamo e Clio ’92, em colaboração com o Ufficio scolastico territoriale di Bergamo. A primeira aula deixou claro: a linguagem não é apenas meio de comunicação — é uma força que modela a realidade.
Gheno, pesquisadora da Università degli Studi di Firenze e integrante do novo Comitê Científico da Fondazione BergamoScienza, partiu de uma citação de Alda Merini — «Amo chi sceglie con cura le parole da non dire» — para afirmar que selecionar termos é questão de responsabilidade, não só de cortesia. O título de sua conferência, «Come sassi nello stagno: il senso di lavorare sulle parole per creare futuri più equi», converte a imagem do estalo das pedras no lago em metáfora: cada palavra é uma pedra que cria ondas no nosso brodo cultural, reforçando ou desestabilizando estereótipos e discriminações.
Como quem analisa um roteiro oculto da sociedade, Gheno convidou a plateia a observar os viés que andam conosco — as estruturas mentais herdadas que orientam escolhas linguísticas. Depois de duas décadas na Accademia della Crusca, seu diagnóstico é direto: as palavras nunca são neutras; elas funcionam como cartina de tornasole da sociedade e frequentemente reproduzem dinâmicas de poder que favorecem homens, brancos, ricos e famílias tradicionais. «La lingua la cambia chi parla, ma non tutti coloro che parlano hanno lo stesso potere», disse ela — notação lapidar que anuncia a desigualdade de autoridade discursiva.
Gheno recorreu ao exemplo contemporâneo e simbólico de Greta Thunberg: se você é jovem, mulher e autista — isto é, vive na interseção de múltiplas marcas de discriminação — seu discurso pode ser deslegitimado apesar de sua capacidade de mobilização global. Aqui emergem as várias faces da injustiça linguística:
- Injustiça linguística, que reduz figuras públicas, como transformar a astronauta Cristoforetti em «Astrosamantha»;
- Injustiça discursiva, quando um «não» é ignorado e reinterpretado pelo outro;
- Injustiça testimonial, ao desvalorizar a voz de quem vive a experiência, em vez de ouvi-la;
- Injustiça epistêmica, que apaga mulheres da história da ciência e da filosofia;
- Injustiça hermenêutica, quando faltam palavras para nomear uma violência e tratá‑la.
Ao revelar essas camadas, Gheno não faz apenas crítica — propõe um exercício coletivo e diário: transformar o nosso vocabulário como se reescrevêssemos uma cena que define futuros. Essa é uma batalha íntima, cultural e política, que exige autocrítica: reconhecer os próprios vieses é o primeiro passo para mudar o roteiro coletivo.
Como observadora do zeitgeist, eu diria que o que a palestrante nos lembra é uma lição de cinema social: cada palavra deixa uma sombra na tela da memória pública. Trabalhar a linguagem é, portanto, trabalhar a imagem que teremos de nós mesmos amanhã — um reframe que convoca responsabilidade, imaginação ética e, sobretudo, a compreensão de que falar não garante automaticamente o poder de ser ouvido.


















