Por Chiara Lombardi — Em um dos momentos mais simbólicos da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Inverno Milano Cortina, o rapper e artista Ghali recitou a poesia Promemoria, de Gianni Rodari, em italiano, francês e inglês. A escolha do texto não foi apenas literária: funcionou como um espelho do nosso tempo, uma pequena cena que traduz o roteiro oculto da sociedade num gesto público de reafirmação dos valores universais.
A declamação, conduzida com voz contida e presença contida, foi acompanhada por uma coreografia interpretada por um elenco inteiramente com menos de 20 anos. A coreografia evoluiu junto com as palavras e a música, partindo de uma montanha humana de corpos que se apoiavam e se abraçavam, até transformar-se progressivamente numa colomba — símbolo universal de paz. Era, em cena, a semiótica do desejo coletivo: a juventude encenando a responsabilidade intergeracional.
Rodari, que falava ao público infantil com linguagem simples e, ao mesmo tempo, de efeito radical, oferece em Promemoria um lembrete direto sobre o que nos cabe nunca praticar. A poesia devolve a paz ao concreto, não à abstração: um compromisso diário que atravessa povos e gerações. Como toda boa cena cinematográfica, o momento convidava o público a olhar além do espetáculo — a perceber a mensagem como um refrão ético inscrito no evento.
Promemoria (fragmento)
Ci sono cose da fare ogni giorno:
lavarsi, studiare, giocare,
preparare la tavola, a mezzogiorno.
Ci sono cose da fare di notte:
chiudere gli occhi, dormire,
avere sogni da sognare, orecchie per non sentire.
Ci sono cose da non fare mai, né di giorno né di notte, né per mare né per terra: per esempio, la guerra.
Tradução oficial em inglês (Richard Dixon)
There are things to be done each day:
like wash and read and play
and set the table at midday.
There are things to be done each night:
close your eyes, go to sleep,
have dreams for dreaming, have ears for not hearing.
There are things you must never do, not by day nor by night not by sea nor by shore: for example WAR.
O gesto de inserir Rodari na abertura das Olimpíadas é um reframe potente: coloca a literatura infantil no centro da cena pública, lembrando que as palavras destinadas às crianças podem ser, de fato, as mais claras para traduzir demandas coletivas. Não é um ato de nostalgia; é uma aposta na capacidade da linguagem simples de convocar responsabilidade.
Gianni Rodari (Omegna, 23 de outubro de 1920 — Roma, 14 de abril de 1980) foi escritor, poeta e pedagogo, uma das vozes mais originais da literatura italiana do século XX. Com imaginação radical e um vocabulário direto, Rodari falou para crianças e adultos sobre paz, justiça e responsabilidade coletiva, transformando a fantasia num instrumento de engajamento cívico.
Ver Promemoria lido num palco global reafirma a potência da cultura como dispositivo de memória e ação. É como se a cerimônia tivesse aberto uma cena secundária — menos óbvia, mais necessária — que nos convida a assistir não apenas ao espetáculo, mas ao encenamento de valores que compõem o tecido civil: solidariedade, respeito e o compromisso diário de recusar a guerra.
Enquanto a pomba se formava no centro do palco, parecia claro que a imagem não era apenas decorativa: era a projeção visual de um apelo. Um eco cultural que, como um bom filme, deixa uma imagem para voltar à mente.





















