Ghali apagado pela transmissão? O silêncio que virou manchete
No ritmo acelerado da cerimônia de abertura, parece que alguém apagou a luz sobre Ghali. O rapper milanês de raízes tunisinas participou da cerimônia recitando uma poesia de Gianni Rodari sobre a paz — um promemoria em italiano, francês e inglês, e que originalmente poderia ter incluído também o árabe. Ainda assim, durante a cobertura da RAI não houve um único primeiro plano dele; o nome sequer foi mencionado pela narração oficial. Uma invisibilidade que nas redes sociais virou imediata polêmica e acusações de censura.
Os comentários da transmissão, assinados pelo diretor de RaiSport Paolo Petrecca, estiveram marcados por gafes — segundo relatos, houve confusões como a troca da presidente do COI por parentes de autoridades e erros ao identificar artistas. Em meio a esse cenário de desconexão editorial, Ghali aparece diluído entre os bailarinos que encenavam o quadro que ele deveria liderar, como se sua voz fosse um eco sem rosto.
Nas plataformas digitais a reação foi imediata: internautas definiram o tratamento como “irrespeitoso” e não faltaram acusações diretas de censura. O caso passou a figurar entre os assuntos mais comentados, transformando um trecho poético contra a guerra em palco de debate público sobre representação cultural e controle simbólico.
O clima tenso já havia vazado antes da cerimônia. Na véspera, Ghali publicou nas redes um texto cortante que deixava entender negociações e restrições: “Sei quando uma voz é aceita. Sei quando é corrigida. Sei quando se torna demais. Sei por que me queriam. Sei também por que não me queriam. Sei por que me convidaram”. Ele afirmou que lhe foi recusada a possibilidade de cantar o hino e que a versão árabe do poema fora considerada “demais”. “Sei que um pensamento meu não pode ser expresso. Sei que um meu silêncio faz barulho. Sei que é tudo um grande teatro”, concluiu.
O episódio também tem uma dimensão política. Nas últimas semanas, o ministro do Esporte Giovanni Abodi sugeriu que o artista não teria carta branca na performance, citando a postura pública de Ghali sobre a questão palestina — em particular, a frase “stop ao genocídio” proferida no palco do Festival de Sanremo 2024 — e dizendo que um país deve saber lidar com um artista cujo pensamento não compartilha.
Mais do que um incidente técnico de transmissão, este episódio funciona como um espelho do nosso tempo: a saturação midiática faz do palco um território onde se combinam espetáculo, memória e disputa simbólica. A decisão de reduzir a presença visual de um intérprete que traz uma mensagem multilíngue e de paz ressoa como um reframe do que se permite ver e ouvir — o roteiro oculto da sociedade quando linhas sensíveis de política e identidade cruzam o entretenimento.
Enquanto a discussão prossegue, resta perguntar: a cultura pública deve moderar vozes que incomodam a maioria, ou cabe ao público exercer o papel de leitor crítico diante do espetáculo? O caso Ghali na RAI é menos sobre um close que faltou do que sobre quem decide o enquadre da nossa memória coletiva.
Chiara Lombardi — Espresso Italia





















