Por Chiara Lombardi – Centro Arte & Cultura, Espresso Italia
No dia 2 de fevereiro, o Centro Archeologico Italiano del Cairo recebeu o grupo da missão arqueológica em Mersa/Wadi Gawasis, cuja pesquisa desenha, com minúcia e olhar crítico, o mapa das antigas rotas marítimas do Mar Vermelho. A conferência, às 18h, reuniu o professor Andrea Manzo (diretor da missão), o doutor Mahmoud Imam (vice-diretor) e a doutora Hasnaa Abdrabbo (especialista em conservação no Grand Egyptian Museum e membro da equipe).
A expedição, iniciada pela Università L’Orientale de Nápoles em 2001, tem oferecido descobertas que reconstroem a história do local e as suas conexões comerciais em escala de longa duração. Situado a cerca de vinte quilômetros ao sul do porto de Safaga, o sítio conhecido na antiguidade como Saww desenvolve-se ao longo de uma plataforma coralina que margeava uma baía mais profunda do que a atual. Foi neste cenário que se estruturou um entreposto marítimo vital durante o Medio Regno (cerca de 2040–1782 a.C.).
Os pesquisadores explicaram como Mersa/Wadi Gawasis funcionou como ponto de partida das expedições rumo a Punt, região do sul do Mar Vermelho célebre por resinas aromáticas, ébano, ouro e outros recursos preciosos. As evidências — de fragmentos de fasciame a ancoragens reaproveitadas, passando por nichos que abrigavam estelas inscritas — ajudam a traçar o cotidiano técnico e ritual dessas jornadas. Uma imagem recorrente é a de uma enseada que servia tanto de cais quanto de plataforma simbólica para o comércio interregional.
Descoberto pelo egiptólogo Abdelmoneim Sayed em meados dos anos 1970, o sítio recebeu investigações extensivas entre 2001 e 2011 por uma missão ítalo-americana; desde 2022, cabe a uma missão ítalo-egípcia, composta pela Università degli Studi di Napoli “L’Orientale”, pelo ISMEO e pela Cairo University, ampliar o campo de estudo para o interior. O objetivo é mapear as rotas caravaneiras que ligavam a enseada à planície do Nilo e entender melhor o povoamento antigo da região.
Além de redesenhar caminhos comerciais, as investigações em Mersa/Wadi Gawasis funcionam como um espelho do nosso tempo: nos convidam a repensar trocas, dependências e a economia simbólica dos bens de luxo. A arqueologia aqui opera como um roteiro oculto da sociedade antiga, revelando não apenas embarcações e âncoras, mas também decisões humanas que moldaram redes de poder e consumo.
O trabalho de conservação, destacado pela doutora Hasnaa Abdrabbo, é outra face essencial da narrativa: preservar tábuas e ancoradouros, estabilizar estelas inscritas e documentar materiais orgânicos compõe a gramática técnica que nos permite ler a história. Essas operações não são apenas científicas; são um reframe cultural, um esforço para devolver voz ao passado e situá-lo no diálogo sobre mobilidade, comércio e recursos.
Em termos mais amplos, as descobertas em Mersa/Wadi Gawasis ampliam nossa compreensão do Mar Vermelho na Idade do Bronze, uma área ainda pouco cartografada historicamente. A missão comprova que portos aparentemente remotos foram pontos nodais de circulação e conectividade — um eco cultural que ressoa até as negociações geopolíticas e econômicas contemporâneas.
Ao final da apresentação no Cairo, os especialistas sublinharam a necessidade de estudos multidisciplinares e cooperação internacional para decifrar as camadas do sítio. Há, nas areias e nos entalhes do coral, fragmentos de uma memória que reclamam tradução e contexto. E, como qualquer bom filme que nos prende até o último quadro, Mersa/Wadi Gawasis continua a oferecer cenas inéditas — cada nova peça exumada reescreve, com elegância e precisão, o roteiro da história antiga.






















