Por Chiara Lombardi – Espresso Italia
Em um leilão que parece um corte de cena — onde a técnica torna-se protagonista e o passado reaparece em close — o desenho preparatório do pé direito da Sibila Libica pintada por Michelangelo na Cappella Sistina foi vendido na noite de 5 de fevereiro na Christie’s por 27,2 milhões de dólares, já incluindo as taxas de venda. O resultado superou largamente a estimativa inicial de 1,5 a 2 milhões e estabeleceu um novo marco para desenhos michelangiolescos no mercado.
O folheto a sanguínea, assinado com a grafia histórica Michel Angelo Buona Roti e datado entre 1511 e 1512, pertence à segunda fase da obra encomendada por papa Júlio II. No verso aparece outro estudo, desta vez de uma perna com o joelho dobrado, reforçando a conexão direta com o processo criativo do autor durante os trabalhos na abóbada vaticana. Especialistas apontam que é um dos raríssimos desenhos do mestre ainda em mãos privadas e um dos poucos que podem ser ligados de forma segura aos afrescos da Capela Sistina.
O leilão começou com lance inicial de 1,4 milhão de dólares e se transformou em uma disputa intensa de 45 minutos, até o martelo parar em 23,1 milhões, totalizando 27,2 milhões com encargos. O preço registrado bateu o recorde anterior para um desenho de Michelangelo, alcançado em 2022 em Paris.
A peça veio à tona graças ao serviço online Request an Auction Estimate da própria Christie’s. Uma fotografia enviada por um colecionador anônimo da costa oeste dos Estados Unidos despertou a atenção de Giada Damen, especialista do departamento de desenhos antigos. Foi um reconhecimento criterioso que passou por estudos iconográficos, análises científicas e um confronto direto com um desenho autógrafo de Michelangelo abrigado no Metropolitan Museum of Art. A investigação também traçou parte da proveniência: no século XVIII o desenho integrou a coleção do diplomata suíço Armand Louis de Mestral de Saint-Saphorin.
Mais do que o valor monetário, este episódio funciona como um espelho do nosso tempo: vemos a circulação acelerada de arte que antes estava circunscrita a arquivos e museus, agora reintroduzida no mercado global por plataformas digitais. O que está em jogo não é apenas a propriedade de um objeto, mas o roteiro oculto da memória cultural, que se redesenha a cada venda e a cada autenticação.
Para os amantes da história da arte, o leilão reafirma a importância dos desenhos como documentos de processo, verdadeiros roteiros de pensamento que revelam o gesto do artista antes que a imagem final se materialize na parede. No contexto europeu e global, a venda evidencia também a crescente convergência entre ciência, curadoria e mercado, enquanto fragmentos do passado circulam como sinais de status e de legado.
O desenho foi herdado pela família do colecionador e permaneceu desconhecido quanto à autoria até sua submissão à casa de leilões. O comprador não foi divulgado. Resta-nos, portanto, contemplar o movimento: um esboço que transitou do caderno privado de um gênio do Renascimento para o pódio do mercado contemporâneo, carregando consigo a aura de um tempo que segue ressoando no presente.





















