- O dilema das forças laicas
- Uma crise de representação
- A decisão dos Republicanos Europeus
- O contexto internacional: guerra, finança e autoritarismos
- O que significa reencontrar a laicidade hoje?
- Estratégias para a reinvenção laica
- O desafio cultural: além do jogo eleitoral
- Conclusão: o roteiro oculto da sociedade
Chiara Lombardi para Espresso Italia — Nos últimos meses, na cena política europeia e sobretudo italiana, acende-se uma pequena constelação de forças liberaldemocráticas. Mas convém não nos enganarmos quanto ao verdadeiro alcance dessas formações: partidos e movimentos que se autodefinem liberaldemocráticos — como os Republicanos Europeus, o PRI, Azione, o PLD, o Partito Liberale e os liberalsocialistas — enfrentam um conflito de identidade que os torna frágeis diante das grandes máquinas partidárias.
O dilema das forças laicas
O ponto central desse impasse é o papel subalterno que essas forças desempenham no sistema político atual. O vigente sistema eleitoral e o bipolarismo impõem alianças muitas vezes desprovidas de um verdadeiro collante ideológico ou programático, que acabam por aniquilar a especificidade laica dessas formações. Não é surpresa que o eleitorado histórico dos republicanos tenha se dispersado entre os DS, o PD, Forza Italia e até no abstencionismo — por vezes migrando mesmo para partidos de direita.
Uma crise de representação
Vivemos o paradoxo de uma identidade histórica que tende a esmorecer. Ligados a um legado risorgimentale e ao patrimônio moral da Resistenza, os laicos deveriam ser guardiões de uma sociedade aberta e plural. Em vez disso, assistimos a uma erosão dessa voz pública: a sua função originária parece esgotada, enquanto o debate político se reduz a rumores pedantes e rixas de salão, muito distantes de um projeto republicano e reformista.
A decisão dos Republicanos Europeus
É significativo que os Republicanos Europeus tenham rompido uma antiga aliança com o PD. Um gesto que não foi apenas tático, mas simbólico: a ruptura sinaliza uma recusa em ser subalterno a um bloco que, segundo o ponto de vista dos republicanos, traiu o espírito do centro-esquerda original — o projeto do l’Ulivo — e se deixou consumir por lutas internas entre ex-democristianos e ex-comunistas, marginalizando as forças laicas que contribuíram para sua origem.
O contexto internacional: guerra, finança e autoritarismos
Este realinhamento não acontece num vácuo. No cenário global, a erosão das normas democráticas enfrenta uma escalada de conflitos: a guerra domina territórios e imaginários, impulsionada tanto por interesses da finança global quanto por governos autoritários com renovado ímpeto colonialista. É neste cenário que a defesa de uma consciência laica e liberal adquire uma urgência civilizacional — não somente eleitoral.
O que significa reencontrar a laicidade hoje?
Reencontrar a laicidade é resgatar um papel público que não se resume a rótulos. Trata-se de:
- Reivindicar uma agenda que coloque a liberdade individual e a igualdade perante a lei no centro do debate.
- Construir alianças programáticas transparentes, não pactos de conveniência que diluem identidades.
- Recuperar a pedagogia cívica: a laicidade não é neutra, é um projeto de convivência plural.
Estratégias para a reinvenção laica
Se há um roteiro para os que não se alinham facilmente nem à direita nem à esquerda, ele exige coragem intelectual e estratégica. Algumas linhas de ação possíveis:
- Definir um conteúdo programático claro: missão e propostas que comuniquem com clareza diferenças e prioridades.
- Investir em discurso público que recupere narrativas heroicas do risorgimento e da resistência como patrimônios comuns e não como relíquias partidárias.
- Evitar o subalternismo: recusar ser moeda de troca em coalizões que não reconhecem autonomia político-ideológica.
- Conectar-se com as novas gerações: traduzir a laicidade em causas contemporâneas (direitos digitais, educação cívica, defesa das instituições).
O desafio cultural: além do jogo eleitoral
É aqui que a análise cultural se torna decisiva. A trajetória dos laicos pode ser lida como um espelho do nosso tempo: quando as instituições perdem narrativa, as soluções publicitárias e o imediatismo das mídias substituem o debate profundo. Os Republicanos Europeus, ao reivindicarem autonomia, convidam a uma reflexão mais ampla sobre o papel da memória histórica na política contemporânea — um reframe que transforma atos táticos em projeto civilizacional.
Conclusão: o roteiro oculto da sociedade
Não se trata apenas de disputar cadeiras no parlamento; trata-se de restaurar uma voz moral e política que fale ao centro da sociedade. A reinvenção da consciência laica é, por fim, um convite a reencontrar uma luminosidade republicana que nem sempre se reduz ao aritmético da coalizão. Como analista do zeitgeist, digo que estamos diante de um pequeno, porém significativo, movimento de reação — uma tentativa de recodificar o mapa político italiano e europeu. Se essa constelação logrará sobreviver à gravidade dos blocos hegemônicos, depende da capacidade de transformar memória em proposta e autonomia em força programática.
Chiara Lombardi é analista cultural ítalo-brasileira na Espresso Italia. Observa a interseção entre entretenimento, memória e transformação social. Esta reflexão integra a série sobre identidade política e o futuro dos valores republicanos na Europa contemporânea.


















