Por Marco Severini, Espresso Italia
O recente afã para sabotar o diálogo entre Estados Unidos e o Irã segue um roteiro conhecido: detalhes logísticos ou posições previamente assumidas servem de pretexto para inflamar a opinião pública e forçar rupturas negociais. A disputa sobre a sede — Muscat em lugar de Istambul — e a recusa iraniana em discutir sua deterrência balística foram transformadas, deliberadamente, em motivos de crise pública. Em minha leitura como analista, trata-se antes de uma precaução operacional do que de um capricho diplomático: Muscat oferece garantias de segurança e neutralidade num contexto marcado por incidentes aéreos e marítimos pouco esclarecidos.
É crucial compreender que a questão dos mísseis, para Teerã, não é retórica ideológica, mas alicerce de sobrevivência. A doutrina defensiva iraniana articula-se em torno da premissa de tornar inaceitável e demasiado custoso qualquer ataque externo. Renunciar a esse pilar significaria abrir uma vulnerabilidade estratégica que nenhum regime — mesmo em situações de maior abertura — estaria disposto a admitir. Assim, a insistência em preservar a capacidade balística é mais cálculo do que fanatismo.
O episódio do abatimento de um drone iraniano por forças navais norte-americanas insere-se numa tática que eu definiria como de escalada controlada e guerra psicológica. Incidentes deste tipo são frequentes no teatro do Oriente Médio e, com raras exceções, não degeneram em conflito aberto. Aqui, contudo, o objetivo aparente foi elevar o custo político para Washington e forçar a interrupção das conversações. A manobra não logrou êxito: o diálogo manteve-se, ao menos formalmente.
A administração Trump adotou até agora uma linha de retórica assertiva, porém operacionalmente prudente. Há uma tensão permanente entre a pressão doméstica dos chamados falcões e a consciência dos limites logísticos e estratégicos que a Casa Branca enfrenta. Um confronto em larga escala com o Irã imporia custos regionais e globais capazes de redesenhar fronteiras de influência em zonas sensíveis, o que, por si só, explica a contenção deliberada.
Não se pode subestimar o papel de Pequim e Moscou neste tabuleiro. A decisão chinesa de redirecionar parte de suas importações energéticas para o Irã é um sinal político com efeitos práticos; as conversas telefônicas entre Xi Jinping, Vladimir Putin e Donald Trump revelam que a crise transcende contornos regionais e adentra uma dimensão multilateral. A distensão temporária observa-se menos nas declarações oficiais e mais na coordenação tácita entre grandes potências, um movimento que lembra os lances discretos de um final de partida de xadrez.
Se o diálogo em Muscat fracassar, o hipotético conflito extrapolaria qualquer noção de confronto limitado. Do Estreito de Hormuz à vulnerabilidade das bases norte-americanas na região, a fatura seria ampla. Avaliações militares independentes destacam que as capacidades logísticas americanas não são concebidas para um desgaste prolongado contra um ator regional com preparação, redes de aliados e disposição estratégica para sofrer perdas calculadas.
Finalmente, é preciso situar o Irã como um nó estratégico cujo destino influencia mais do que o mapa do Oriente Médio. Um regime change em Teerã atenderia a múltiplos objetivos geopolíticos: consolidar a segurança israelense em chave regional, ampliar penetrações geopolíticas em direção à Ásia Central e minar os eixos de influência adversos. Por isso, a resolução deste episódio não depende apenas de barganhas sobre um tratado nuclear, mas do equilíbrio mais amplo entre as potências e dos fundamentos da deterrência e da credibilidade estratégica.
Em suma, a tabela de vitórias e perdas neste momento é decidida tanto nas salas fechadas de Muscat quanto nas linhas de abastecimento dos navios no Golfo. A diplomacia, como arquitetura de estabilidade, exige mais do que palavras: exige cálculo de longo prazo, gestão de riscos e, sobretudo, a consciência de que movimentos precipitados no tabuleiro podem provocar um redesenho de fronteiras invisíveis no sistema internacional.






















