Por Stella Ferrari — O Bitcoin mostrou uma correção positiva após cair abaixo de US$ 65.000, mas a recuperação é tênue e a fase de tensão no mercado de criptomoedas permanece. Atualmente a moeda digital mais conhecida se mantém pouco acima de US$ 68.000, nível similar ao registrado antes da eleição de Trump em novembro de 2024.
O contraste com o pico histórico de US$ 126.000, atingido em outubro de 2025, revela a profunda fragilidade do setor. Também sofreu queda o preço do Ether, que recuou 13%, para US$ 1.849, ampliando a perda no ano para cerca de 37%.
Esse comportamento reflete uma combinação de fatores técnicos e macroeconômicos: realização de lucros após o forte rali de 2024, retorno da aversão ao risco nos mercados globais e o fortalecimento das expectativas de uma política monetária mais restritiva e prolongada nos Estados Unidos — a necessária calibragem de juros que tem funcionado como freio sobre ativos mais voláteis.
Pesam ainda as incertezas regulatórias e o arrefecimento dos fluxos para os ETFs spot de Bitcoin listados nos EUA, que nos meses anteriores haviam sido um motor de demanda. Em resumo, a onda de entusiasmo associada a Trump começou a perder força e os investidores passaram a buscar refúgio em ativos tradicionais: ouro e prata registraram altas recorde, beneficiando-se da busca por reserva de valor de longo prazo.
Analistas da Deutsche Bank, Marion Laboure e Camilla Siazon, atribuem parte do movimento ao «bloqueio dos progressos em matéria de regulação» nos Estados Unidos — legislativo esse que está empacado no Congresso por semanas. A falta de um desenho claro de políticas cria um vácuo regulatório que impede a consolidação de instrumentos institucionais e freia a aceleração de tendências de adoção.
As suspeitas de conflito de interesses envolvendo Trump e seus colaboradores também lançam dúvidas sobre o papel político no impulso às criptomoedas: reportagens da Bloomberg apontaram que o patrimônio da família teria crescido em US$ 1,4 bilhão no ano passado graças a atividades digitais. Esse tipo de narrativa alimenta volatilidade e incerteza.
Um fator técnico adicional é o efeito da alavancagem. Investidores que captaram empréstimos massivos na expectativa de multiplicar ganhos com a alta do Bitcoin foram forçados a liquidações ao confrontar as quedas de preço. As vendas forçadas amplificaram as perdas e empurraram o ativo ainda mais para baixo — um ciclo conhecido para quem acompanha mercados de alta alavancagem.
No mercado de previsões, a plataforma Kalshi mostrou em sua última rodada que os traders começaram a apostar em quedas mais intensas do preço do Bitcoin ao longo do ano: há, segundo estimativas do mercado, cerca de 85% de probabilidade de o preço cair abaixo de US$ 60.000.
Em termos de estratégia, a situação exige postura de gestor: separar o ruído político e especulativo do núcleo econômico, avaliar o risco de crédito por trás das posições alavancadas e monitorar de perto os passos do Congresso norte-americano. O motor da economia global segue em marcha, porém a aceleração de tendências no universo cripto depende hoje tanto da regulação quanto da disciplina financeira dos investidores.






















