Por Marco Severini – Em uma movimentação que redesenha, de forma sutil, peças essenciais no tabuleiro da diplomacia estratégica, Rússia e Estados Unidos concordaram em Abu Dhabi sobre a necessidade de iniciar o mais rapidamente possível novas conversações sobre a não proliferação nuclear, após a caducidade do tratado New Start. A declaração foi divulgada pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, e reportada pela imprensa russa.
Segundo Peskov, houve um consenso explícito no encontro em que ambas as capitais se comprometeram a agir com responsabilidade. “Há consenso, discutido em Abu Dhabi, no sentido de que ambas as partes adotarão posições responsáveis e estão cientes da necessidade de iniciar rapidamente negociações sobre esse tema”, afirmou o porta-voz.
No mesmo fio diplomático, o presidente americano Donald Trump publicou em sua plataforma ‘Truth’ um posicionamento que sinaliza preferência por avançar para um novo acordo em vez de prorrogar o pacto anterior. “Em vez de estender o ‘New Start’ (um acordo mal negociado pelos Estados Unidos que, além de tudo o mais, é gravemente violado), devemos colocar nossos peritos nucleares para trabalhar em um tratado novo, melhorado e modernizado, que possa durar por longo tempo no futuro”, escreveu Trump.
O que se percebe, na tessitura dessas declarações, é uma combinação de prudência e cálculo geopolítico. Ambos os Estados — protagonistas centrais da arquitetura de controle de armas do pós‑Guerra Fria — parecem optar por evitar um vácuo de comunicação que poderia deteriorar ainda mais os já frágeis alicerces da segurança internacional. Ao mesmo tempo, colocam em movimento mecanismos técnicos e diplomáticos que exigirão semanas, possivelmente meses, de negociação entre especialistas e delegações.
Do ponto de vista estratégico, a disposição para negociar um tratado “novo e modernizado” equivale a uma partida de xadrez em que as peças são reposicionadas não apenas para reduzir riscos imediatos, mas para recalibrar as linhas de influência estratégica de longo prazo. É uma tentativa de substituir um instrumento cuja validade política e técnica se esgotou por um arcabouço que incorpore novos parâmetros tecnológicos e verificação.
Resta observar agora o desenrolar prático: calendário de reuniões técnicas, formato das negociações (bilaterais ou com observadores internacionais), escopo do controle de ogivas e vetores, e os mecanismos de verificação que serão aceitos por Moscou e Washington. A tectônica de poder em torno do tema nuclear continua sensível; o modo como essas conversas evoluírem terá impacto direto sobre a estabilidade estratégica e sobre a confiança — elemento raro e caro nas praças diplomáticas.
Em suma, o entendimento público de Abu Dhabi representa um movimento decisivo, pela sua simbologia e pelo seu conteúdo, no esforço de manter sob controle os riscos nucleares e de construir, passo a passo, um novo marco jurídico‑técnico para as próximas décadas.





















