Por Marco Severini — A comunidade cristã da Jordânia guarda esperança concreta de que Papa Leone inclua o país em sua agenda de viagem. Em declarações contidas e relevantes para a diplomacia religiosa, o padre Tareq Abu Hanna, pároco da Igreja Latina da Decapitação de São João Batista, recorda que Madaba já recebeu quatro Pontífices — Paulo VI (1964), João Paulo II, Bento XVI e Francisco — e que a expectativa é de que Leone some-se a essa sequência histórica.
Madaba, erguida sobre o antigo sítio bíblico de Medba (ou Medeba), situa-se a cerca de 35 quilômetros a sudoeste de Amã e constitui um dos principais centros cristãos do reino, com aproximadamente 20 mil cristãos entre 120 mil habitantes. Conhecida como a “Cidade dos Mosaicos”, Madaba abriga obras bizantinas de grande valor, entre as quais se destaca, na igreja ortodoxa de São Jorge, um mapa-mosaico do século VI que representa itinerários de peregrinação à Terra Santa e uma imagem histórica de Jerusalém.
Na perspectiva institucional e pastoral, a Igreja Latina da Decapitação de São João Batista merece atenção estratégica: possui uma cripta subterrânea que abriga o “Museu da Acrópole” e um antigo poço moabita com cerca de três mil anos ainda em funcionamento. Em torno desse patrimônio material e simbólico desenha-se um ponto de referência para peregrinações cristãs e para o diálogo inter-religioso na região.
O padre Tareq enfatiza que, embora a paróquia seja dedicada ao martírio de João Batista — episódio relacionado à fortaleza de Macheronte (Mukawir), nas proximidades —, ela é também uma “Pedra Viva”: representa a convivência diária entre cristãos e muçulmanos e a cooperação entre diversas confissões cristãs. “É importante inserir Madaba no programa de um peregrinaggio cristão porque ela representa um mosaico de cores e memórias”, observa, numa formulação que é ao mesmo tempo pastoral e geopolítica.
Do ponto de vista institucional, o Patriarcado Latino de Jerusalém administra a paróquia, e o Patriarca Pierbattista Pizzaballa tem servido de interlocutor direto com o Vaticano, levando a percepção local ao conhecimento do Papa Leone. “Nas audiências com o Papa, o Patriarca tem ilustrado nossa realidade”, diz padre Tareq, sublinhando a importância desses canais formais para converter expectativas em visitas efetivas.
Don Giovanni Biallo, assistente espiritual da Opera Romana Pellegrinaggi, recorda com precisão institucional que todos os Pontífices, desde Paulo VI, reconheceram o valor espiritual e simbólico da Jordânia, conectando-a inseparavelmente a Israel e Palestina como espaço de memória cristã e de diálogo. Essa continuidade pontifícia funciona como um movimento decisivo no tabuleiro diplomático religioso: sustenta alicerces frágeis da convivência e protege, por meio da visibilidade internacional, as comunidades locais.
Em termos mais amplos, a esperança por uma visita papal a Madaba traduz a necessidade estratégica de manter e fortalecer uma “cultura de convivência” entre cristãos e muçulmanos, algo que, segundo líderes locais, difere da realidade de alguns países vizinhos e que foi cultivada também pelo apoio real. Num desenrolar que lembra a cartografia das influências, a presença papal seria um gesto simbólico com impacto tangível na estabilidade regional e no reconhecimento internacional das minorias religiosas.






















