Por Marco Severini — Em um movimento que altera o tabuleiro político, Bill Clinton juntou-se à sua esposa, Hillary Clinton, na exigência de que suas testemunhas relativas às ligações com o financista Jeffrey Epstein ocorram em sessão pública e com transmissão, no âmbito das investigações conduzidas pela Comissão de Vigilância da Câmara.
Hillary está convocada para depor no dia 26 de fevereiro; Bill foi agendado para o dia 27. O presidente da Comissão, o deputado republicano James Comer, afirmou que as audições serão gravadas por câmeras, mas realizadas a portas fechadas — uma solução técnica que, segundo os Clinton, reduz a transparência e agrada a interesses partidários.
Em mensagem na rede social X, o ex-presidente ressaltou que solicitou ‘a publicação integral dos arquivos sobre Epstein’ e que já apresentou declaração juramentada sobre o que sabe. ‘Aceitei comparecer pessoalmente diante da Comissão’, escreveu, mas advertiu que a proposta de gravação a portas fechadas não atende nem às vítimas de Epstein, que merecem justiça, nem ao público, que tem direito à verdade. ‘Isto não é uma apuração de fatos, é pura política’, afirmou.
Os Clinton, que já haviam exigido audiência pública, dizem não aceitar ser reduzidos a meras figuras de cena num processo que consideram uma encenação partidária. ‘Se querem respostas, façamos do modo correto: uma audição pública, onde o povo americano possa ver o que realmente acontece’, disse Bill.
As acusações contra Bill Clinton recuam à alegação de que ele teria frequentado a rede de garotas, inclusive menores, associada a Epstein. Fotografias que retratam o ex-presidente com algumas jovens foram publicadas, mas os porta-vozes dos Clinton sempre rejeitaram as imputações, sustentando que o contato foi interrompido após a denúncia e condenação de Epstein, em 2008.
O confronto em torno da forma de condução das audições surpreendeu os republicanos e embaralhou os cálculos do partido. Fontes da mídia indicam que o presidente Donald Trump estaria preocupado com o impacto midiático do caso — um episódio que, em sua avaliação, convém ver encerrado rapidamente — e que o Departamento de Justiça já liberou mais de três milhões de arquivos relacionados a Epstein, enquanto quase outros três milhões permanecem selados.
O receio conservador é claro: a exposição pública dos Clinton pode levar à convocação de testemunhas que impliquem aliados de Trump, forçando o partido a enfrentar novas e potencialmente explosivas audições. Em tom incomum, o magnata chegou a elogiar Bill e Hillary, declarando estar ‘aborrecido’ com a possibilidade de que sejam submetidos a um interrogatório incômodo.
Do ponto de vista estratégico, esta é uma partida em múltiplas frentes: é sobre transparência e direitos das vítimas, mas também uma luta pelo controle narrativo em plena eleição e pela capacidade de cada lado de mover suas peças no tabuleiro público. A insistência dos Clinton por público e o desconforto republicano revelam os alicerces frágeis da diplomacia partidária — e a tectônica de poder que molda como arquivos, testemunhos e memórias serão exibidos ao eleitor.
Na arquitetura desta investigação, duas decisões são centrais: a liberação plena dos documentos e a forma pública ou privada das audições. Ambas determinarão não só a percepção pública sobre o caso Epstein, mas também o curso político dos protagonistas. Mantém-se, portanto, um cenário aberto, onde as próximas jogadas poderão redesenhar fronteiras invisíveis entre justiça, interesse público e manobra eleitoral.






















