Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A cerimônia de abertura das Olimpíadas Milano‑Cortina 2026 consolidou, em um gesto simultâneo e carregado de simbolismo, a vontade italiana de transformar um evento esportivo em um retrato ampliado da sua história e identidade. Em Cortina d’Ampezzo, a última passagem foi da esquiadora Sofia Goggia, que recebeu a tocha das mãos de Gustavo Thoeni e acendeu o braseiro na Piazza Angelo Dibona, sob o olhar austero das Dolomitas. Em Milão, o fogo olímpico brilhou no Arco della Pace, em uma cerimônia que reuniu memórias arquitetônicas, futebol e ópera.
O fluxo da Fiamma foi inédito: pela primeira vez na história dos Jogos de Inverno, a chama percorreu trajetos que culminaram na abertura simultânea em duas cidades‑sede. Em Milão, os últimos portadores foram duas lendas do esqui alpino com palmarés impressionantes: Alberto Tomba e Deborah Compagnoni. Em Cortina, Gustavo Thoeni, ouro em gigante em Sapporo 1972, passou o bastão a Sofia Goggia, olímpica campeã na descida em Pyeongchang 2018 e prata em Pequim 2022 — um desfecho que combina glória passada e expectativa por novo capítulo competitivo, já que a atleta voltará às pistas em busca de medalhas.
O Arco della Pace, erguido entre os séculos XVIII e XIX como porta triunfal e símbolo de reconciliação, foi palco de um gesto de significado político e cultural: acender a chama ali implica colocar os Jogos sob o signo do diálogo entre povos, em um momento histórico em que símbolos de união ganham relevo. Em Cortina, a escolha da Piazza Angelo Dibona, batizada em homenagem a um dos maiores alpinistas italianos, lembrou a ligação íntima entre a paisagem das Dolomitas — patrimônio mundial — e a narrativa olímpica do país.
A cerimônia foi, nas palavras dos organizadores, uma celebração “difusa” — espelho de um evento que não se limita a um único recinto, mas que acontecerá por múltiplas localidades do Norte da Itália. Nos quadros iniciais e nos vídeos de apresentação, o destaque para o made in Italy e para a harmonia entre arte e bom gosto foi deliberado: os Jogos foram apresentados também como vitrine cultural e industrial.
Musicalmente, a noite teve momentos de contraste e de alta simbologia. O tenor Andrea Bocelli interpretou “Nessun dorma”, trecho emblemático da ópera Turandot de Puccini, conferindo solenidade lírica à abertura. Em outro momento, a cantora internacional Mariah Carey subiu ao palco vestida por Fausto Puglisi para cantar “Nel blu, dipinto di blu” em versão pessoal, mas as letras — adaptadas foneticamente para um público anglófono — chamaram atenção por soar estranhas em italiano, revelando a tensão entre espetáculo global e autenticidade linguística. Ainda sob o rastro do futebol, os ex‑craques Franco Baresi e Giuseppe Bergomi levaram a chama ao estádio San Siro, integrando memórias esportivas distintas em uma sequência simbólica.
No plano institucional, a primeira‑ministra Giorgia Meloni usou as redes para saudar os atletas: “Portate in gara il vostro cuore: noi saremo lì a tifare per voi. Buone Olimpiadi a tutti gli atleti e forza Azzurri!”. A mensagem resume a intenção de união nacional pretendida pelos organizadores — um chamado a transformar competição em representação coletiva.
Mais do que um espetáculo de luzes e celebridades, a abertura das Olimpíadas Milano‑Cortina 2026 disse algo sobre a Itália contemporânea: a aposta em múltiplos centros de decisão cultural, a instrumentalização da memória esportiva e arquitetônica e a tentativa de construir uma narrativa pública que combine tradição, economia e projeção internacional. Resta acompanhar como essa retórica se traduzirá em legado efetivo, tanto para as cidades‑sede quanto para o sistema esportivo nacional.





















