“Uno, Nessuno e Centomila” faz 100 anos: a versão de Nicasio Anzelmo com Primo Reggiani em tournée
Por Chiara Lombardi — No centenário de Uno, Nessuno e Centomila, a fábula pirandelliana volta aos palcos como espelho do nosso tempo. A montagem assinada por Nicasio Anzelmo traz Primo Reggiani no papel de Vitangelo Moscarda — figura que rompe a superfície do eu e escancara a pluralidade de máscaras que cada um carrega.
O ponto de partida é aquela fagulha pirandelliana bem conhecida: a percepção de uma imperfeição banal no próprio rosto que desencadeia uma implosão existencial. A cena se abre, e com ela se rompem as camadas de convenção — um roteiro oculto da sociedade cai por terra. No elenco, Francesca Valtorta é a mulher que chama o protagonista de Gengè; Fabrizio Bordignon e Enrico Ottaviano se revezam em múltiplas figuras masculinas; e Jane Alexander encarna a atenção afetiva da signorina Anna Rosa.
A aposta de Anzelmo é uma encenação visionária que mistura ironia amarga, grotesco e investigação interior. Sobre o palco do Teatro Ghione, em Roma, até 15 de fevereiro (e depois em tournée por mais de 30 cidades italianas), grandes painéis de papel-cartão funcionam como máscaras ampliadas: são rostos ampliados que aparecem em segundo plano como uma espécie de coro. Essa cenografia sublinha a ideia pirandelliana de identidades superpostas — o cenário vira uma galeria de alteridades, um eco cultural que devolve ao público a própria fragmentação.
Primo Reggiani é particularmente crível ao fundir a idade do ator com a angústia do personagem. Há uma simbiose entre intérprete e figura dramática que torna palpável o processo de desmoronamento do eu. Como escreveu Pirandello, no original que atravessa o século: “Credevo ancora che fosse uno solo questo estraneo… ma presto l’atroce mio dramma si complicò: con la scoperta dei centomila Moscarda ch’io ero”. A tradução desse efeito é impregnada de calor humano e ironia cortante no palco: Moscarda se revela simultaneamente singular e plural.
Dois dos atores do quinteto — Bordignon e Ottaviano — merecem nota por sua capacidade de transformar caricatura em análise social: suas múltiplas figuras não são apenas disfarces, mas incisões que expõem a miséria humana por trás de estereótipos, excessos e clichês. A peça desconstrói as camadas filosóficas, ideológicas e sociais que o homem ergueu ao longo dos séculos para vestir sua insuficiência.
Em termos de linguística cênica, a montagem de Anzelmo evita sentimentalismo; abraça, ao contrário, o grotesco como ferramenta crítica. O riso que nasce ali não é balmário: é uma lâmina que corta o verniz da normalidade burguesa. O público sai não só entretido, mas inquieto, com pistas para analisar como somos vistos e como nos vemos — o velho e potente reframe que Pirandello legou ao teatro mundial.
Essa releitura centenária confirma que Uno, Nessuno e Centomila não é apenas um clássico a ser preservado: é um roteiro de auto-observação permanente, um convite a olhar no espelho sem mitificações. A peça de Anzelmo prova que o teatro continua a ser, enfim, o lugar onde o presente se reconhece e se interroga.



















