Por Aurora Bellini — Em um episódio duro, mas decidido, as autoridades da Flórida coletaram aproximadamente 5 mil iguanas verdes que haviam ficado imobilizadas pelo frio e, depois de levá‑las a centros de manejo, realizaram a eutanásia dos animais. A ação, coordenada pela Florida Wildlife Commission (FWC), ocorreu após uma onda de frio atípica no estado, que fez com que os répteis caíssem das copas das árvores, aparentando estar em estado semicatatônico.
As imagens desses animais, inusitadamente visíveis em jardins e alamedas, chamaram a atenção da população — um reflexo da interrupção do habitat usual desses animais em um território onde são exóticos. Aproveitando a condição de torpor causada pelo frio, equipes de manejo recolheram as iguanas em grande número para centros de triagem e controle, onde tomou‑se a difícil decisão de proceder à sua eliminação em massa.
Segundo a FWC, a justificativa principal para a medida foi que as iguana verdes são uma espécie invasiva não nativa que causa impactos ambientais e estruturais: alimentam‑se vorazmente da vegetação local, competem com espécies nativas e podem danificar infraestruturas quando escavam tocas para nidificação. A presença crescente desses répteis é em grande parte atribuída ao abandono de animais mantidos como pets ornamentais — um ciclo de domesticação e descarte que, como bem sabemos, semeia problemas no ecossistema.
Embora as iguana verdes não sejam tipicamente perigosas para humanos — sendo em sua dieta majoritariamente herbívora —, podem reagir com mordidas quando assustadas, causando feridas incômodas e temor. Ainda assim, a principal motivação do programa foi ecológica: reduzir a pressão sobre espécies nativas e conter a expansão de uma espécie considerada danosa.
A opção pela eutanásia provocou debate público. De um lado, defensores do manejo argumentam que a erradicação é um recurso necessário para proteger ecossistemas frágeis e infraestrutura; do outro, surgem questionamentos éticos sobre métodos e alternativas, sobretudo em situações de crise climática extraordinária que coloca animais já traumatizados em risco. Em vez de respostas fáceis, o episódio acende a necessidade de políticas públicas mais abrangentes — desde campanhas contra o abandono de animais de estimação até protocolos de manejo que priorizem soluções menos traumáticas sempre que viáveis.
Como curadora de histórias de impacto, sinto que este episódio nos convoca a iluminar novos caminhos de convivência entre homem, fauna e cidade: políticas de educação sobre posse responsável, opções de realocação quando possível, e planos de ação que considerem os riscos climáticos crescentes. É preciso semear inovação institucional para que medidas de controle não sejam apenas reativas, mas parte de uma estratégia preventiva e ética.
Enquanto isso, a FWC mantém que a ação foi técnica e necessária para a proteção do ambiente local. A população local permanece atenta e dividida, e o caso deve estimular discussões sobre bem‑estar animal, conservação e as consequências do comércio de animais exóticos. Em nosso horizonte límpido de responsabilidade coletiva, cabe transformar esse episódio em aprendizado: cultivar valores que equilibrem compaixão, ciência e gestão responsável do território.






















