Em mais uma volta de marcha na normalização pós-pandemia, Pfizer reportou no quarto trimestre de 2025 uma receita trimestral de US$17,6 bilhões, com uma queda de 3% em relação ao mesmo período do ano anterior. O resultado confirma a desaceleração do segmento ligado à pandemia, enquanto o portfólio não-Covid mostra sinais de robustez e potencial de aceleração.
O recuo nos lucros é explicado por fatores estruturais: a extinção das exigências de vacinação em vários mercados, a redução persistente da demanda por soros contra Covid e o impacto financeiro de provisões e indenizações relacionadas a processos legais por efeitos adversos. Esses elementos funcionaram como um freio temporário no motor de receitas da farmacêutica.
No detalhe operacional, o imunizante Comirnaty teve uma retração de 35% nas vendas, enquanto o antiviral Paxlovid caiu 70%. Se excluirmos esses dois produtos, o grupo teria apresentado um crescimento operacional de 9% no trimestre — um sinal claro de que a carteira não pandêmica é o eixo de sustentação do futuro crescimento.
Produtos como Abrysvo registraram avanço expressivo (+136%), biossimilares oncológicos cresceram 76%, e medicamentos estabelecidos como Eliquis e Prevnar avançaram 8% cada um; Vyndaqel subiu 7%. Esses dados evidenciam a capacidade de calibragem da empresa: ao reduzir a dependência dos picos pandêmicos, a Pfizer reposiciona suas linhas com ganhos de eficiência e penetração.
O trimestre fechou com uma perda por ação diluída de US$0,29, contra um lucro de US$0,07 no quarto trimestre de 2024. O lucro por ação ajustado, todavia, ficou em US$0,66, superando as estimativas do mercado. Ainda assim, a reação foi negativa no premarket de Wall Street, refletindo a sensibilidade dos investidores às variáveis Covid e ao passivo legal.
No agregado anual, a farmacêutica declarou receitas de US$62,6 bilhões em 2025, queda operacional de 2% ante 2024. Excluindo os produtos relacionados ao Covid, a receita anual teria crescido 6%. O lucro por ação diluído no ano foi de US$1,36, enquanto o ajustado alcançou US$3,22, alinhado com a trajetória de normalização após os picos pandêmicos.
Para 2026, a companhia manteve a sua guidance: receitas entre US$59,5 bilhões e US$62,5 bilhões e lucro por ação ajustado entre US$2,80 e US$3,00. A previsão considera cerca de US$5 bilhões em vendas advindas de produtos Covid e um impacto negativo aproximado de US$1,5 bilhão decorrente da perda de exclusividade de alguns fármacos.
Como estrategista de mercado, observo que este movimento é consistente com uma calibragem fina: o “motor” da empresa está sendo reconfigurado — reduz-se a exposição ao ciclo pandêmico e acelera-se a monetização de ativos terapêuticos permanentes. Riscos jurídicos e provisões continuam a ser variáveis a monitorar, mas o núcleo operacional demonstra resiliência e capacidade de recuperação.
Em termos práticos, investidores e gestores devem acompanhar duas alavancas: a evolução dos litígios e provisões e a execução comercial dos produtos não-Covid, que serão a fonte de torque para a próxima fase de crescimento da Pfizer.






















