Muscat (Omã) — Iniciaram-se hoje, em Omã, os encontros diretos entre delegações dos EUA e do Irã para tratar do dossier nuclear de Teerã. No centro das propostas mediadas pela diplomacia do Golfo está a sugestão de uma limitação do enriquecimento de urânio por um período de três anos, acompanhada do transferência de estoques iranianos atualmente armazenados fora do território nacional — apontados como localizados na Turquia ou no próprio Omã.
O vice-ministro e chefe negociador iraniano Abbas Araghchi, que desembarcou na capital omani por volta da meia-noite com uma delegação, resumiu a postura de Teerã em uma mensagem publicada na rede X: o país entra nas conversações “com os olhos abertos e a memória firme do ano passado”. “Os compromissos devem ser cumpridos”, acrescentou Araghchi. Para ele, paridade de direitos, respeito mútuo e interesses recíprocos não são retórica, mas pilares indispensáveis para um acordo sustentável.
O quadro em que se desenrolam os encontros é tenso e estratégico. Entre ultimatos norte-americanos, pressionamento diplomático de parceiros do Golfo e o ativismo insistente de Israel, que tem reiterado a opção por ações militares caso perceba falhas, as negociações começam com otimismo limitado. Fontes ocidentais e regionais descrevem um ambiente em que a tectônica de poder regional se move com rapidez: o reforço de presença militar nas águas do Golfo e alertas públicos contribuem para um clima de urgência.
Da parte americana, a Casa Branca autorizou uma abertura cautelosa às mediações, mas deixou claro que as conversações terão limites. O Departamento de Estado, por sua vez, emitiu um aviso formal recomendando que cidadãos dos Estados Unidos presentes no Irã deixem o país se possível, organizando planos de partida autônomos, uma medida que sublinha a fragilidade das garantias consulares — já que Washington não mantém representação diplomática formal em Teerã.
Em paralelo, assessores próximos à futura administração Trump, como Jake Vance, foram evocando a linha dura: segundo declarações públicas, a estratégia de Washington privilegiaria instrumentos não militares, embora sem renunciar a todas as opções. Vance também advertiu para um efeito cascata: se o Irã alcançasse capacidade nuclear militar, Riyadh poderia acelerar ambições próprias, redesenhando fronteiras invisíveis de influência no Oriente Médio.
Como analista, observo este episódio como um movimento no grande tabuleiro geopolítico. A proposta de limitar o enriquecimento de urânio por três anos e deslocar as reservas para fora do Irã é um intento de diminuir, temporariamente, a pressão sobre as vias de proliferação; mas é também uma jogada que exige garantias reciprocamente verificáveis — o que, em termos diplomáticos, equivale a erguer alicerces sólidos sobre um terreno historicamente sísmico.
Do ponto de vista estratégico, o sucesso das conversações dependerá de três vetores: a capacidade de garantir mecanismos de verificação técnicos; a disposição das potências regionais em tolerar soluções que reduzam, sem eliminar, o potencial iraniano; e a gestão política doméstica em Teerã e Washington, que podem aceitar um acordo apenas se ele for percebido como preservador de prestígio e segurança nacional. Sem esses elementos, qualquer pacto corre o risco de ser temporário, suscetível a retrações quando mudarem os ventos internos ou externos.
Ao longo do dia, delegações mantiveram contatos bilaterais e multilaterais em Muscat, sem expectativas optimistas sobre resultados imediatos, mas com clara determinação em tentar evitar um escalonamento militar. A descrição precisa das propostas e o calendário de verificação devem emergir nas próximas horas. Nesta partida diplomática, cada movimento será examinado não apenas pelo oponente direto, mas por interesses difusos espalhados pela região — de Jerusalém a Riad, de Ancara a capitals europeias.
Permanece, portanto, um teste de realpolitik: converter iniciativas de contenção em compromissos duradouros, transformando um momento de crise em um desenho de estabilidade. A mesa em Omã é, por ora, o centro de tensão e oportunidade — um movimento decisivo no tabuleiro que pode reconfigurar, ainda que por pouco tempo, os equilíbrios estratégicos do Oriente Médio.





















