Por Marco Severini – Em Abu Dhabi, o encontro trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia terminou sem a virada estratégica esperada. O único resultado concreto foi um acordo pontual para a troca de 314 prisioneiros, anunciado pelo enviado americano Steve Witkoff. Fora isso, as questões centrais — as disputas territoriais sobre Donbass, Crimeia, Zaporizhzhia, Kherson e Sumy — permaneceram sem solução.
O formato empregado em Abu Dhabi repetiu a arquitetura já vista na primeira rodada (23-24 de janeiro): sessões tripartites iniciais, trabalho por grupos temáticos e reconciliação final em plenário. Apesar de relatos sobre avanços técnicos — especialmente relativos a mecanismos de monitoramento do cessar-fogo e à proposta de criação de um centro de coordenação — o nó territorial não se desatou. Moscou mantém uma reivindicação ampla sobre as regiões mencionadas, enquanto Kiev recusa qualquer cedência unilaterais e propõe, como compensação, um congelamento do conflito ao longo da linha de frente atual.
A delegação ucraniana, chefiada por Rustem Umerov, declarou que os trabalhos foram substanciais em termos operacionais, mas insuficientes quanto a garantias políticas. A porta-voz Diana Davitian confirmou o encerramento dos trabalhos. Do lado russo, figuras do Kremlin ressaltaram que não se deve esperar “grandes resultados” da sessão e, em tom de advertência, atribuíram a atrito parte das dificuldades aos atores europeus — numa alusão ao papel de União Europeia e Reino Unido, vistos por Moscou como elementos que procuram minar eventuais avanços.
Para além das negociações formais, paira sobre a mesa o custo humano do confronto. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky ofereceu uma estimativa restrita sobre as perdas militares: cerca de 50 mil soldados ucranianos mortos, um número que sublinha a profundidade do trauma nacional e a dificuldade de costurar acordos em pleno desgaste humano e material.
O episódio de Abu Dhabi traduz-se, em termos estratégicos, num movimento defensivo no tabuleiro: um pequeno ganho humanitário (a troca de prisioneiros) sem alteração das linhas que desenham a tectônica de poder sobre o terreno. A proposta de Kiev de congelar a situação configura uma tentativa de consolidar as posições no curto prazo; a exigência russa por retirada de tropas de áreas amplas indica, em contrapartida, uma pretensão de redesenho de fronteiras invisíveis.
Fontes de imprensa indicaram que um novo ciclo de conversas está previsto para a semana seguinte, mas o Kremlin já buscou temperar expectativas. Trata-se de uma fase em que as negociações se movem entre avanços técnicos e impasses políticos — um jogo posicional em que cada movimento pode ampliar ou restringir futuros acordos. Como analista, vejo o resultado de Abu Dhabi como um lembrete da complexidade intrínseca: sem compromissos sobre soberania e fronteiras, os instrumentos de redução de escalada têm alcance limitado.
Enquanto isso, permanece a necessidade de consolidar mecanismos de verificação e de construir confiança operacional, degraus imprescindíveis para qualquer solução duradoura. No entanto, até que as partes encontrem um eixo viável de negociação sobre os territórios em disputa, esperamos uma sequência de rounds técnicos com ganhos parciais — e a continuidade dos riscos estratégicos que decorrem de frentes militarizadas e alicerces diplomáticos fragilizados.






















