Na virada de 5 para 6 de fevereiro de 2026, o mundo assistiu a um movimento decisivo no tabuleiro estratégico: expirou o tratado New START entre Rússia e Estados Unidos, o último instrumento jurídico vinculante que limitava os arsenais nucleares estratégicos das duas potências. A administração de Donald Trump descartou uma prorrogação de seis meses, alegando que busca ‘um acordo melhor’, enquanto Moscou declarou que não se sente mais legalmente vinculada, embora o presidente Vladimir Putin tenha assegurado que agirá de forma ‘ponderada e responsável’.
Assinado inicialmente em 2010, em Praga, entre Barack Obama e Dmitry Medvedev, e renovado em 2021, o New START estabelecia limites precisos: 1.550 ogivas implantáveis e 700 vetores estratégicos autorizados, além de um mecanismo robusto de inspeções, intercâmbio de dados e notificações que reduzia drasticamente o risco de incidentes por erro ou mal-entendido. Com o seu término, desaparece o último pilar organizador da arquitetura de controle de armamentos herdada da Guerra Fria.
Especialistas em segurança global e representantes governamentais soaram alertas imediatos. O porta-voz do Kremlin, Dmitrij Peskov, advertiu que a ausência de um enquadramento partilhado conduz a uma fase ‘mais perigosa’, preocupação ecoada por analistas que veem no colapso do acordo o sintoma de uma crise profunda de confiança estratégica entre Washington e Moscou. Para muitos observadores, trata-se menos de um evento isolado do que de um redirecionamento tectônico das relações de poder.
Há duas dimensões cruciais nesta nova geografia de risco. A primeira é técnica: sem os regimes de inspeção e verificação, a transparência entre os arsenais diminui, elevando a probabilidade de erros de cálculo em momentos de tensão. A segunda é política: a recusa em prorrogar o tratado sinaliza uma aposta em negociações bilaterais de maior alcance ou em novos formatos diplomáticos, possivelmente incluindo outros atores nucleares.
Comentários e pronunciamentos de personalidades públicas amplificaram a apreensão. Figuras como Jeffrey Sachs e outros analistas alertaram para a proximidade aumentada de cenários catastróficos, enquanto vozes acadêmicas internacionais ressaltaram a crescente complexidade do equilíbrio estratégico, agora marcado por múltiplos vetores de dissuasão, incluindo modernizações de mísseis intercontinentais e capacidades hipersônicas.
Em termos geopolíticos, a ausência do New START redesenha fronteiras invisíveis de influência: abre-se um espaço onde a diplomacia tradicional terá de reconstruir alicerces frágeis, e onde a arquitetura de segurança requererá novos acordos multilaterais ou arranjos regionais. A China e outras potências nucleares emerge(m) no horizonte como peças inevitáveis nesse novo tabuleiro, ainda que suas posturas e doutrinas permaneçam distintas das duas superpotências.
Enquanto isso, a comunidade internacional permanece em alerta. O desafio imediato é evitar que a incerteza se transforme em escalada indesejada. Na diplomacia, como no xadrez, a melhor defesa é a prevenção: reforçar canais, restabelecer verificações e desenhar novos marcos que permitam reduzir riscos e restituir algum grau de previsibilidade ao que, até ontem, era o núcleo da estabilidade nuclear.






















